
As eleições para a Distrital de Braga do Chega estão marcadas para este domingo e há três listas concorrentes, lideradas por Carlos Barbosa (deputado), Paulo Ralha (vereador em Barcelos) e Filipe Melo (deputado e apoiado por André Ventura).
A Distrital de Braga do Chega realiza este domingo as eleições internas para os seus órgãos, numa disputa a três entre o atual presidente, Filipe Melo, o deputado Carlos Barbosa e o vereador Paulo Ralha. O processo foi coberto, entre outros, pelo Semanário VOX, uma publicação que afirma cobrir a região de Braga, mas que na sua ficha técnica indica ter sede em Moscovo e ser propriedade de uma empresa russa.
Filipe Melo, sobrinho-neto do Cónego Melo, lidera a distrital desde 2020, tendo sido reeleito por lista única em 2024. Atualmente é deputado à Assembleia da República pelo círculo de Braga desde as legislativas de 2022, tendo sido reeleito em 2025. Recandidata-se à liderança do Chega em Braga, defendendo o crescimento do partido no distrito, com cinco deputados eleitos nas últimas legislativas e vereadores em seis dos 14 concelhos, e prometendo um mandato de reforço da organização interna.
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Carlos Barbosa, até agora presidente da Mesa da Assembleia Distrital e igualmente deputado à Assembleia da República, entrou em rutura com Melo e Ralha, decidindo apresentar uma lista própria, falando em “jogos de bastidores” e prometendo “um Chega mais forte, mais limpo, mais unido”.
Paulo Ralha, atual vereador na Câmara de Barcelos, foi o candidato mais crítico dos dois, acusando o atual líder Filipe Melo de distanciamento do distrito, e recusando-se a escolher entre Melo e Barbosa, a quem classifica como “a escola do muro de betão e do pensamento único”. Ralha critica também “os episódios de agressividade e a postura violenta demonstrada publicamente pelo deputado Carlos Barbosa”.
Num vídeo publicado ontem no Facebook, o candidato refere que, “de um lado temos duas pessoas que têm casos e casinhos, que acumulam situações que nos deixam envergonhados. Temos um candidato que ameaça um militante de morte, agride-o verbalmente, ameaça-o de morte e temos uma candidatura alegre, uma candidatura de gente boa…”.
Filipe Melo (lista B) é um dos deputados mais polémicos da bancada do Chega, com um historial que inclui vários episódios. Em dezembro de 2020, escreveu no Facebook sobre uma colega de partido de origem brasileira, Cibelli Pinheiro de Almeida, que “Não vai ser uma brasileira que vai mandar nos destinos de um partido nacionalista, patriótico. Se essa brasileira não se preocupa com o futuro do Partido e do nosso líder, vamos mostrar de que raça somos feitos.” Alertado para o cariz xenófobo, editou a publicação substituindo “brasileira” por “senhora”. A dirigente acabou por se demitir.
O deputado consta ainda da lista pública de execuções do Ministério da Justiça, com três processos no Tribunal Judicial da Comarca de Braga, com uma dívida total confirmada pelo jornal Polígrafo de 80.493,55 euros.
Numa sessão plenária em outubro de 2025, gritou à deputada socialista Eva Cruzeiro “vai para a tua terra”, o que levou o presidente da Assembleia da República a ordenar a abertura de um inquérito. O Livre pediu o afastamento do deputado da Mesa da AR e a deputada avançou com queixa-crime.
Em setembro de 2025, numa manifestação em frente ao parlamento, publicou um vídeo nas redes sociais referindo “um cheiro a caril tremendo”, referindo-se aos manifestantes. Num debate parlamentar em 2025, fez um gesto, que a deputada Isabel Moreira interpretou como um beijo enviado em modo de provocação, o que gerou um novo ciclo de troca de acusações no parlamento. Foi também durante a campanha de 2022 que usou o lema “Deus, Pátria, Família e Trabalho” em Guimarães, uma adaptação direta do lema usado pelo regime fascista do Estado Novo.
Carlos Barbosa (lista A) tem um historial muito menos extenso do que Filipe Melo, mas não isento de incidentes. Em maio de 2026, a Assembleia da República levantou-lhe a imunidade parlamentar após acusação de injúria. O Correio da Manhã confirmou que o parlamento aprovou o levantamento da imunidade para que Barbosa pudesse responder à acusação em tribunal.
Num vídeo da campanha de Paulo Ralha, um militante afirma que Carlos Barbosa ameaçou de morte Paulo Ralha da lista C. Segundo este militante, “o Ministério Público levantou a imunidade parlamentar a Carlos Barbosa. A que ponto que nós chegamos…” refere.
Um jornal com sede em Moscovo
Entre os meios que acompanham o partido Chega na região de Braga, encontra-se o “Semanário VOX”, que se apresenta como “publicação digital de informação regional e generalista” com “especial atenção ao distrito de Braga e à região do Minho”, onde, segundos os próprios responsáveis, “90% dos conteúdos publicados são produzidos com recurso a ferramentas de Inteligência Artificial”.
A ficha técnica do site, que o 41N consultou, revela informação radicalmente diferente do que seria expectável num órgão de comunicação social português. A entidade proprietária é designada “Коммерсантъ” (Kommersant – empresa de media russa) e o diretor “Роман Уманский” (Roman Umansky – nome russo). A sede é Moscovo e apresenta um número fiscal russo “NIPC: 7707120552”.

O site foi criado em abril de 2026, há menos de três meses, e assume claramente uma posição de apoio à candidatura de Filipe Melo. Ao mesmo tempo exibe vários anúncios com ligações para casinos, aparentemente, ilegais em Portugal, e notícias generalistas, claramente criadas por ferramentas IA.
O nome “Kommersant” corresponde a um dos principais grupos de media da Rússia, com ligações documentadas ao magnata próximo do Kremlin Alisher Usmanov. A publicação não está registada na ERC, Entidade Reguladora para a Comunicação Social.
O semanário tem um perfil na rede social “Facebook” que tem atualmente quase 60 mil seguidores.
As eleições para a distrital de Braga prometem ser quentes, depois de uma campanha marcada pelas trocas de acusações entre os três candidatos. Prevê-se que Filipe Melo, apesar de todas as polémicas em que está envolvido, possa ser reconduzido no cargo, tendo em conta que é apoiado pelo líder do partido e pela juventude Chega de Braga, embora isso parece ter perdido relevância dentro do partido.
Na primeira ronda das eleições internas, realizada a 28 de junho, as distritais do Porto, de Setúbal e de Faro derrubaram três deputados próximos de André Ventura. O deputado Rui Afonso perdeu a liderança no Porto para Luís Couraceiro. Em Setúbal, o deputado e até então líder distrital do Chega Nuno Gabriel perdeu para Nuno Valente, vereador da Câmara do Montijo e em Faro, o deputado João Paulo Graça foi derrotado por José Paulo Sousa.
Das 12 estruturas que realizaram eleições internas, oito mudaram de liderança, com especial impacto nas listas afetas aos atuais líderes.
O deputado Bruno Nunes, que terá apoiado algumas das listas vencedoras, escreveu um texto enigmático no Facebook onde refere que “Sair de cena é sempre um momento importante. No fundo, é dizer a quem fica em palco: ‘Esta foi a minha última deixa neste capítulo. Agora vai. Vai com tudo e brilha. O palco é teu. A plateia aplaudir-te-á de pé'”.
Alguns militantes do partido, interpretaram estas palavras como um sinal dirigido a André Ventura.
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