Era para ser um projeto literário pensado “para o público, para a cidade do Porto“, desenhado para ocupar ruas e praças e ser vivido pelos seus habitantes. Foi o que foi prometido na pomposa conferência de imprensa de apresentação do BABELL, em finais de março, no Porto. A organização, a cargo da Fundação Livraria Lello, em coprodução com a Câmara do Porto, anunciou então que o acesso seria pago, mediante a compra de um livro numa das 50 livrarias aderentes. Cada livro dava acesso a um único evento e o objetivo era incutir hábitos de leitura. O vereador da Cultura, Jorge Sobrado, disse à Renascença que a ideia da autarquia era “pôr mais Porto dentro do evento“.
Mas o que vi na passada sexta-feira à noite, na baixa do Porto, foi outra coisa: ruas cortadas, muros e grades a restringir a circulação e o acesso de pessoas – incluindo aos passeios – seguranças a revistar o público e centenas de pessoas barradas à entrada dos eventos pela organização. Ficou claro que o BABELL não foi um evento universal, aberto a toda a cidade. Uma parte estava dentro da muralha erguida pela Lello, outra, do lado de fora, a tentar ver. Não sabemos se era esse o objetivo.
A noite prometia: uma conversa com os escritores Héctor Abad Faciolince e Javier Cercas, na Praça dos Leões, junto à livraria Lello e, em simultâneo, um concerto duplo com Carminho e Bárbara Bandeira na Avenida dos Aliados, onde, na véspera, se tinham juntado GNR, Rui Veloso e Pedro Abrunhosa para milhares de pessoas.
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Não se pode dizer que o BABELL não tenha ocupado as ruas da cidade. Ocupou e fechou. A Praça dos Leões estava fortificada com barreiras a toda a volta, acesso restrito a quem tinha ingresso e um livro na mão, e até uma área VIP para convidados especiais. Algumas pessoas, sem livro e sem ingresso, tentaram assistir do exterior da barricada, ainda que fosse impossível ver o palco. Lá dentro, uma audiência considerável, mas com cerca de metade das cadeiras vazias. Apesar de todos os cuidados da organização – que colocou uma vasta lista de regras nas entradas -, a conversa chegou a ser interrompida pelos gritos dos grupos de “pub crawls” que costumam juntar-se naquela praça ao fim de semana.

Na esquina da igreja do Carmo, a organização decidiu tapar o passeio público, dificultando a vida aos transeuntes, principalmente às pessoas com mobilidade reduzida e carrinhos de bebé, obrigadas a circular no meio da rua ou a afastar-se em direção a Carlos Alberto.
Nos Aliados, o acesso fazia-se por barreiras, à semelhança dos grandes festivais, com seguranças a verificar ingressos e a revistar as pessoas com detetores de metais. Muitos turistas, confusos, tentavam entender como entrar no recinto para assistir ao concerto, mas ficaram todos à porta. Vários polícias patrulhavam o interior e o exterior do espaço. O resultado: mais pessoas fora do recinto do que dentro da barricada erguida pela Lello. Uma separação estranha entre uma elite de livro na mão e o povo curioso, mas distante.


A ideia de dar acesso ao festival através da compra de um livro é, em teoria, boa, porque incentiva a leitura e apoia as livrarias que vivem momentos difíceis. Mas, na prática, levantou muros, separou pessoas e fechou os eventos ao ar livre a grande parte da cidade. Não há memória de um concerto nos Aliados com acesso pago, muito menos num evento em que a autarquia é coprodutora. A mensagem parecia ser que a cultura não é para quem quer, é para quem nós queremos que seja ou só para quem se interessa por ela. E esse contraste esteve bem visível nos Aliados, entre quem desfilava dentro da cerca e quem se amparava atrás das grades, à espera de conseguir ver alguma coisa, entre barracas de cerveja e um autocarro turístico “Hop-On Hop-Off” estacionado junto ao palco, a cortar a vista de quem não podia entrar.
O 41N tentou obter esclarecimentos da organização e um balanço dos primeiros dias do festival, mas o comissário responsável, Rui Couceiro, não quis prestar declarações, limitando-se a dizer que só falava depois de solicitada uma credencial e que ela era necessária para aceder aos eventos. A credencial de imprensa foi solicitada na hora, no site do festival, mas até ao final do evento, não só não foi atribuída, como não recebemos qualquer resposta da Fundação Livraria Lello. No espaço dedicado à imprensa, o site do BABELL advertia que a organização “reserva-se ao direito de aceitar acreditações e de definir prioridades editoriais“.
A obsessão pelo controlo pareceu marcar este evento, tentando contrariar o significado de “babel” que, no dicionário de português e na língua hebraica, é sinónimo de algazarra, desordem e confusão. Tudo foi pensado ao pormenor para controlar e separar os portadores de ingresso e livro, dos mirones que não fazem parte do universo intelectual.
Mas a confusão acabou por aparecer em vários momentos do festival, principalmente na apresentação do filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, extremamente atrasada e proferida em alemão, o que levou muitos espectadores a abandonar o local, indignados.

Não há dúvidas que o BABELL é um festival literário com nomes grandes da literatura mundial, incluindo laureados com o Prémio Nobel, e um programa ambicioso, que a organização fez questão de salientar, custou mais de três milhões de euros.
Uma ninharia se comparada com os investimentos imobiliários que a Lello está a fazer na baixa do Porto, onde compram quase ruas inteiras, no Mosteiro de Leça do Balio ou no Lionesa Business Hub. Nas vésperas do BABELL, uma mesquita em risco de ser despejada pela Lello e a demolição da confeitaria Serrana para dar lugar a mais um projeto turístico da Lello, chocaram os portuenses. A respeito destes assuntos, os responsáveis também não prestam quaisquer esclarecimentos à população.
A cultura não é algo que se compre, por mais dinheiro que se possa enterrar nela. A Lello podia ter oferecido à cidade um bom programa de cultura, de portas abertas e sem barreiras, como o Serralves em Festa, a Feira do Livro ou o S. João – esses sim – abertos a toda a cidade, incluindo os indesejados. Em vez disso, promoveu um evento megalómano e faustoso. Preferiu a opulência e o controle – contratando seguranças e erguendo muros em praças públicas – à modéstia e universalidade. Afastou o povo das praças para erguer, durante uns dias, um verdadeiro castelo babilónico.





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