Violência e medo África do Sul: 900 detidos após protestos anti-imigração que forçaram a fuga de milhares de migrantes

A violência na África do Sul está a aterrorizar os imigrantes que ainda se encontram no país, principalmente os ilegais. A desinformação e as redes sociais alimentam o ódio e o nacionalismo.

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Já são consideradas as maiores manifestações dos últimos anos contra a imigração ilegal na África do Sul. No passado dia 30 de junho, dezenas de milhares de pessoas mobilizaram-se em 120 marchas em todo o país, e apesar da maioria dos protestos ter decorrido de forma pacífica, 12 deles degeneraram em violência, saque e confrontos com a polícia. O balanço inclui pelo menos uma morte, mais de 900 detenções e milhares de migrantes em fuga, aterrorizados.

O que aconteceu?

As manifestações de 30 de junho foram convocadas por uma coligação de mais de 20 grupos da sociedade civil sul africana, liderada pelo movimento March and March, depois de terminado o “prazo” autoproclamado pelos organizadores para que os migrantes irregulares abandonassem o país. O governo sul-africano deixou claro, desde o início, que o prazo não tinha qualquer validade jurídica e que os cidadãos não têm autoridade para fazer cumprir as leis de imigração, competência que é exclusiva do Estado.

O March and March é uma organização sem fins lucrativos fundada em março de 2025 por Jacinta Ngobese-Zuma, uma ex-apresentadora de rádio da Vuma FM, com base em Durban, KwaZulu-Natal. O nome reflecte o compromisso do movimento com a ação de protesto contínua e organizada.

À medida que este movimento foi crescendo, passou a focar-se nos migrantes ilegais acusando-os de contribuir para os problemas atuais da África do Sul, onde o desemprego e a corrupção abundam. A liderança é uma mulher negra, com raízes populares, que reivindica uma tradição de ativismo cidadão, o que o distingue dos movimentos de direita europeus e norte-americanos. Mas os seus métodos e retórica são amplamente criticados por organizações de direitos humanos.

O GroundUp, uma publicação sul-africana de jornalismo de investigação, verificou cinco afirmações da líder do movimento e concluiu que a maioria era enganosa ou falsa. A ideia de que os imigrantes são responsáveis pelas violações é contrariada por estudos que mostram que 28% a 34% dos homens sul-africanos admitem ter cometido violações; a afirmação de que a economia dos townships está a encolher, não tem suporte nos dados disponíveis; e a ligação entre imigração e crime não é sustentada pelas estatísticas prisionais, já que 65% dos imigrantes nas prisões sul-africanas estão lá apenas por infrações à lei de imigração.

O discurso é muito semelhante ao que vemos na Europa nos movimentos de extrema direita, mas as consequências parecem ser bem mais inflamadas com verdadeiros gangs a patrulhar bairros periféricos à caça de imigrantes ilegais, sobretudo nas províncias de Gauteng, KwaZulu-Natal e Western Cape. Em Durban, mais de 15.000 manifestantes desfilaram pelas ruas do centro da cidade, alguns transportando armas tradicionais, como escudos e cassetetes Zulu, enquanto gritavam “Abahambe!” (“Eles têm de ir!” em isiZulu), frase que se tornou o grito de mobilização e de guerra deste movimento.

Esta onda de violência já se tinha propagado em 2021, quando distúrbios semelhantes resultaram em mais de 350 mortos e perdas avaliadas em milhares de milhões de rands. Desta vez, foram mobilizados reforços policiais para cinco das nove províncias do país durante a noite, antes das marchas arrancarem, tentando evitar o que aconteceu há cinco anos.

Os números das detenções e das vítimas

Mais de 900 pessoas foram já detidas, por violência pública, roubo, auxílio a imigrantes ilegais e violações da lei de imigração, com muitos dos detidos a ser migrantes ilegais apanhados nas operações policiais paralelas às manifestações. A Western Cape registou o maior número de detenções, com 215, seguida da Eastern Cape, com 208. Pelo menos uma pessoa morreu durante os distúrbios. Desde o início deste ciclo de protestos, que arrancou em abril, já há registo de cinco mortes.

A fuga em massa de migrantes

Antes mesmo das manifestações de 30 de junho, milhares de migrantes abandonaram o país por medo da violência. Só entre os dias 25 e 30 de junho, mais de 9.000 cidadãos do Malawi e cerca de 3.000 zimbabueanos saíram pela fronteira de Beitbridge. Em Durban, um centro de repatriamento temporário acolheu cidadãos do Malawi à espera de regresso ao seu país. Três grupos de migrantes nigerianos também foram repatriados para a Nigéria, incluindo um grupo de 271 pessoas que chegou a Lagos na terça-feira. A fronteira de Beitbridge, entre a África do Sul e o Zimbabué, registou um aumento acentuado de tráfego nos últimos dias, com autocarros a transportar migrantes que partiram voluntariamente.

O contexto: desemprego, desigualdade e xenofobia

A África do Sul tem uma das taxas de desemprego mais elevadas do mundo, superior a 32% segundo os dados mais recentes do Statistics South Africa, um sistema de saúde público sobrecarregado e serviços básicos em colapso em muitas áreas. Neste contexto, os imigrantes (muitos dos quais chegaram durante o período pós-apartheid, sobretudo do Zimbabué, Moçambique, Malawi e Nigéria), tornaram-se alvo frequente de tensões sociais, e discursos inflamados, ainda que os dados oficiais não sustentem estas narrativas, de que a culpa do desemprego ou da deterioração dos serviços, é dos imigrantes porque se sujeitam a ganhar menos.

Dados do Censo de 2022, indicam que a África do Sul tinha cerca de 2,4 milhões de estrangeiros documentados e irregulares, representando apenas 3,9% da população total, um valor muito abaixo das estimativas que têm circulado em discursos populistas e nas redes sociais.

A Amnistia Internacional Sul-Africana, uma das vozes mais críticas da forma como o movimento March and March tem realizado os protestos, emitiu um comunicado a alertar para o risco de a xenofobia ser usada como bode expiatório. Shenilla Mohamed, directora executiva da organização, afirmou que “responsabilizar os estrangeiros distrai da responsabilidade do governo de resolver os problemas estruturais subjacentes“, acrescentando que a desinformação e a xenofobia arriscam alimentar mais violência contra os migrantes“, e com isto, agravar ainda mais a situação do país.

O movimento March and March tem também um processo no Tribunal dos Direitos Humanos da África do Sul, na sequência de protestos fora de uma escola primária em Durban em janeiro deste ano. A líder do movimento entregou-se voluntariamente à polícia para responder às acusações.

A situação é tensa e estes movimentos mobilizam sobretudo jovens através da frustração com o desemprego, a insegurança habitacional e o acesso limitado a serviços públicos, usando a retórica moral e nacionalista que acusa os estrangeiros de ser uma ameaça às comunidades e modos de vida locais.

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Redes sociais estão a ser usadas para desinformar e alimentar o ódio contra imigrantes no país.

Um elemento central que atravessa todos estes movimentos é o papel das redes sociais como acelerador. Vídeos virais, desinformação, hashtags inflamatórias e transmissões em direto de confrontos, moldam a perceção pública mais rapidamente do que os factos oficiais. Os grupos populistas descobriram que a indignação com a imigração, mobiliza eleitores frustrados de forma barata e bastante eficaz.

Publicações na rede social Facebook tentam puxar pelo sentimento e emoções dos sul africanos. Numa dessas publicações está escrito sobre um fundo vermelho “Para aqueles que ainda estão aqui ilegalmente e não querem voltar para casa: digam-me o motivo; talvez eu possa ajudar…”. Nos comentários, vários homens escrevem “Eles acham que nós estamos a brincar…”, ou “Eles estão a testar a nossa paciência. Se o sangue tiver que ser jorrar, que assim seja”. Outro usuário acrescenta “Na minha zona, basta ligar para o SAPS [Polícia Sul Africana] que eles vêm buscá-los.”.

Josiah Mukoroko (utilizador do Zimbabwe) comenta no Grupo “March And March Until We Win”: “sou casado com uma mulher sul-africana e temos três filhos; dói-me o coração ver os meus filhos a sofrer”. As respostas não se fazem esperar. Uma mulher sul africana escreve que “os filhos devem seguir com o pai” enquanto outro utilizador anónimo atira: “Leva a tua família e vai para o teu país; Tu não podes estar com a tua mulher. A sério… Sê um homem e vai consertar o teu país”.

O grupo Operation Dudula é outro movimento anti-imigração, mas mais radical e com um discurso claramente racista e assente no slogan “África do Sul para os Sul Africanos”. Num dos muitos vídeos deste grupo, em frente a uma escola, pessoas armadas com armas tradicionais gritam e protestam em frente a crianças pequenas. Na descrição do vídeo está escrito “Voltem para o vosso país sangrento, seus inúteis. Não podes lutar contra o teu próprio governo, por isso vens para a África do Sul. Canalhas”.

A líder do March and March, Jacinta Ngobese-Zuma, já anunciou que os protestos vão continuar todas as quintas-feiras, enquanto o governo não responder às exigências do movimento, controlando de forma mais rigorosa as fronteiras e aplicando de forma mais efetiva as Leis de imigração.

Fontes: Reuters, Associated Press, NBC News, Al Jazeera, TIME Magazine, Mail & Guardian, The Citizen, Amnesty International South Africa, CGTN, OkayAfrica.

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