Mesquita do Porto despejada pela Lello quer comprar edifício prometido pela Câmara

O 41N entrevistou Shah Alam Kazol, presidente da associação da Comunidade do Bangladesh no Porto que não desiste de manter o espaço de culto na cidade.

A mesquita Hazrat Hamza, da comunidade muçulmana do Bangladesh do Porto está ameaçada de despejo pelos proprietários da Livraria Lello, depois do edifício onde a mesquita funciona há mais de 20 anos ter sido comprada pela empresa Lello Vitória – Livros e Turismo, Lda. em fevereiro do ano passado, conforme foi noticiado pelo 41N no passado dia 13.

A Lello não aceita renovar o contrato com a associação que gere a mesquita e o contrato anterior, feito com o antigo proprietário do prédio, termina a 31 de outubro. Se não for encontrada uma solução até essa data, o local de culto será despejado para dar lugar a um projeto da Lello, do qual não se conhecem pormenores, apenas que se trata de um “circuito criativo”.

A comunidade do Bangladesh é bastante expressiva no Porto e está integrada na cidade. Na Rua Chã, junto à Sé Catedral, há até um memorial dos Mártires do Movimento da Língua Materna Bangla.

Monumento dos Mártires do Movimento da Língua Materna Bangla
Monumento de homenagem aos Mártires do Movimento da Língua Materna Bangla no Porto.

O 41N visitou a mesquita, que funciona num espaço bastante precário e degradado na travessa do Loureiro, e falou com o presidente da associação da Comunidade do Bangladesh do Porto, Shah Alam Kazol, que é responsável pela gestão da mesquita.

Alam Kazol refere que, até agora, não recebeu nenhuma carta do senhorio, mas já tiveram contactos com o dono da livraria Lello, Pedro Pinto, que disse que “nós não temos nenhum contrato com eles, porque o contrato que nós tínhamos era com o anterior proprietário“.

O problema é que o anterior proprietário, enviou uma carta à associação, após a venda do imóvel, a anunciar que o contrato ia terminar em outubro. A associação ainda tentou adquirir o imóvel para manter a mesquita em funcionamento, mas o prédio acabou nas mãos da Lello que já adquiriu um número considerável de edifícios na rua do Loureiro. Um deles albergava a antiga confeitaria Serrana, classificada como histórica pela autarquia, mas que foi totalmente demolida pela Lello.

Alam Kazol entende que a Lello não pode despejar a mesquita desta forma, porque “no contrato está escrito ‘mesquita’, que é um local de culto. E um local de culto não pode ser despejado de um dia para o outro. Tem que ter um tempo para procurar um espaço“.

Para complicar ainda mais o caso, o antigo proprietário, passou a propriedade para o filho antes de vender o prédio, sem avisar os inquilinos. A associação tentou apelar à Lello para prolongar o prazo para se encontrar uma solução, mas a Lello terá recusado a proposta “Nós falamos com o Dr. Pedro Pinto para ver se ele consegue dar mais 5 anos e ele disse que não“.

Shah Alam Kazol comunidade bangladesh Porto mesquita
Shah Alam Kazol, presidente da associação da Comunidade do Bangladesh no Porto. (foto: Facebook Shah Alam Kazol)

O 41N contactou os responsáveis da Lello e Grupo Lionesa (proprietária da Lello) para obter esclarecimentos sobre este assunto nos dia 4 e 15 de junho, mas não obteve qualquer resposta. Enviamos ainda um conjunto de perguntas à Câmara Municipal do Porto sobre este assunto, mas a Câmara também não respondeu ao nosso pedido de esclarecimento.

O responsável pela mesquita afirmou ao 41N que “não recebemos nenhum contacto da Câmara“. Alam Kazol afirma ainda que foi enviada uma carta ao Presidente da Câmara Municipal do Porto explicando o ponto de situação e propondo a compra de um edifício na rua das Porta do Sol que tinha sido prometido pelo anterior presidente Rui Moreira à associação.

Mas o atual Presidente da Câmara, Pedro Duarte, recusa-se a dialogar com os responsáveis da mesquita sobre este problema e referiu à agência LUSA, no passado mês de maio, que “a construção de mesquitas na cidade do Porto não é uma prioridade

A Comunidade do Bangladesh do Porto sente-se enganada, porque Rui Moreira prometeu atribuir à associação o direito de superfície de um edifício devoluto na Rua da Porta do Sol, que é propriedade da autarquia, com a condição da realização de obras de reabilitação suportadas pela comunidade e estimadas em 600 mil euros.

No entanto, quando o assunto ia ser debatido em reunião de câmara, Rui Moreira retirou o ponto da ordem de trabalhos, justificando a decisão com o facto de, no seu entender, não ser recomendável avançar com “iniciativas que não são consensuais” para evitar “tensões na cidade“.

O 41N questionou Alam Kazol se o facto de ser militante e candidato nas listas do PS nas últimas eleições autárquicas, pode ter influenciado esta postura de Rui Moreira e Pedro Duarte, mas o presidente da associação nega “Eu acho que não, porque esta mesquita existe há mais de 23 anos. E eu só tomei posse como presidente da mesquita há 2 anos. Por isso não tem nada a ver com isso“.

Sobre o futuro da mesquita Hazrat Hamza, a associação não desiste de tentar encontrar uma solução. Apesar da forte pressão imobiliária, Alam Kazol refere que existem cerca de 20 mil edíficios devolutos na cidade do Porto, “mas nós como portuenses não queremos nada de graça. Queremos comprar pelo mesmo valor que a Câmara comprou, se a Câmara quiser“.

A mesquita continua em funcionamento na travessa do Loureiro, acolhendo um número significativo de fiéis, principalmente à sexta feira quando, na oração do meio dia, chegam a reunir-se cerca de 1500 pessoas naquele espaço de culto.

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