Data Centers Centros de dados: Portugal aposta na IA enquanto o mundo faz contas aos brutais custos ambientais

Portugal está a criar condições para a instalação de novos investimentos em centros de dados, mas parece não existir uma avaliação sustentável dos impactos destes investimentos na rede elétrica e no consumo de água.

O crescimento da internet, e principalmente, da Inteligência Artificial, obriga à construção de mais centros de dados (data centers), que consistem em instalações físicas centralizadas que abrigam equipamentos como servidores, sistemas de armazenamento e redes. Estes espaços são essenciais para processar, armazenar e distribuir dados digitais de forma massiva, garantindo que aplicações, sites e serviços em “nuvem” funcionem sem interrupções, mas os recursos consumidos por estes centros são astronómicos e estão a gerar preocupações e um debate à escala mundial.

centros de dados Data Centers - Pexels Brett Sayles

Portugal posiciona-se como destino estratégico para a instalação de centros de dados, com Sines a tornar-se o maior projeto da Península Ibérica e um dos maiores da Europa. Enquanto o Governo promete dezenas de milhares de milhões de euros em investimento, comunidades nos Estados Unidos, na Irlanda e em vários outros países já travaram ou bloquearam projetos semelhantes, citando consumo excessivo de água, pressão sobre a rede elétrica e aumento das faturas de eletricidade.

O que está a ser construído em Portugal

O Governo aprovou em março deste ano, o Plano Nacional de Centros de Dados (PNCD), um instrumento estratégico que organiza a intervenção do Estado em quatro eixos de atuação a implementar entre 2026 e 2027, através de 15 iniciativas centrais. O executivo considera que estas infraestruturas são “hoje uma infraestrutura estratégica para a competitividade, a soberania digital e a atração de investimento“, ainda que reconheça que o país parte de uma “base instalada reduzida” e enfrenta “processos regulatórios complexos” e “fragmentação institucional“.

O projeto mais visível em Portugal é o da Start Campus, em Sines, que é atualmente o maior centro de dados da Península Ibérica e um dos maiores da Europa. O primeiro edifício do campus, com capacidade de 1,2 gigawatts, está em funcionamento desde outubro e foi formalmente inaugurado este ano. A construção do segundo edifício teve início neste segundo trimestre de 2026. O investimento total do projeto, financiado por capital privado norte-americano e britânico, ronda os 8,5 mil milhões de euros, mas, segundo o CEO da Start Campus, poderá atrair até 30 mil milhões de euros em investimento adicional dos clientes até 2030, incluindo equipamento e servidores.

A britânica Nscale já anunciou a instalação de mais de 66 mil placas gráficas Nvidia em Sines a partir de 2027, num investimento adicional de quase 700 milhões de euros, com a Microsoft a comprometer-se a investir mais de dez mil milhões de dólares através desta parceria.

Para além de Sines, Portugal já tem centros de dados em funcionamento em Lisboa, onde se destaca a instalação da Equinix, no Prior Velho. A Altice (MEO) opera atualmente a maior rede de data centers de Portugal, sendo os dois maiores centros localizados em Lisboa (Carnaxide) e na Covilhã. Possui ainda outras instalações regionais, mais pequenas, no Porto, Açores e Madeira.

Apesar do forte investimento previsto, os representantes desta indústria avisam que a execução será mais difícil do que a estratégia planeada, devido ao risco de “desenvolvimento não coordenado de clusters” e a falta de previsibilidade nos prazos de licenciamento como entraves que ainda persistem, mesmo com a simplificação anunciada pelo Governo.

O Governo estima que o setor possa ter um impacto agregado no PIB entre 56 e 86 mil milhões de euros até 2040, mas é preciso acrescentar a esta equação os custos ambientais destes projetos, que em Portugal, parecem ainda não levantar grandes preocupações nem debate.

Os impactos ambientais que preocupam o mundo

O crescimento dos centros de dados está intimamente ligado à explosão da inteligência artificial (IA), que exige um volume de computação muito superior ao das infraestruturas digitais convencionais. As instalações mais recentes consomem entre 10 a 40 vezes mais energia do que os centros de dados construídos antes de 2015. Globalmente, estima-se que existam atualmente cerca de 11.800 centros de dados, um número impulsionado pelo crescimento exponencial da procura computacional ligada à IA.

Um relatório recente da Universidade das Nações Unidas (UNU-INWEH) estima que, em 2025, os centros de dados consumiram cerca de 448 terawatt-hora de eletricidade, mais do que o consumo total de energia da Arábia Saudita, e que esse número pode atingir os 945 terawatt-hora até 2030. O mesmo relatório projeta que a água usada pela IA possa equivaler às necessidades de 1,3 mil milhões de pessoas até 2030, numa altura em que a escassez de água potável se torna cada vez mais num problema, não só para os países subdesenvolvidos, mas para todo o planeta.

Este consumo de água tem uma explicação técnica direta: os servidores geram um calor intenso e a refrigeração evaporativa é um dos métodos mais simples e económicos para os manter a funcionar sem problemas de sobreaquecimento. Isso significa que grande parte da água utilizada não é tratada e é devolvida ao ciclo, mas acaba por evaporar durante o processo de arrefecimento. Um grande centro de dados pode consumir até cerca de 19 milhões de litros de água por dia, o equivalente ao consumo de água de cerca de 100 mil habitantes em Portugal.

A ONU alerta ainda para uma crescente “divisão digital”, já que apenas 32 países, ou 16% do total de países do mundo, acolhem atualmente centros de dados especializados em IA, com 90% dessa capacidade concentrada nos Estados Unidos e na China.

Estados Unidos: oposição organizada bloqueia dezenas de milhares de milhões em projetos

Nos Estados Unidos populações inteiras estão a sentir os efeitos do consumo de recursos dos data centers e a contestação cresce a olhos vistos. Segundo a organização de investigação Data Center Watch, entre maio de 2024 e março de 2025, a oposição de comunidades locais levou ao bloqueio (ou atraso) de 64 mil milhões de dólares em projetos de centros de dados em todo o país, um valor que, segundo análises mais recentes da mesma organização referentes a um período posterior, ascende já a 98 mil milhões de dólares. Uma análise da Heatmap Pro identificou ainda, pelo menos, 25 projetos cancelados só no ano passado, em resposta direta à contestação local.

No interior do Estado da Georgia, por exemplo, vários habitantes reportam escassez de água em casa desde que os gigantescos centros de dados da Meta começaram a operar nas proximidades, com relatos de redução na pressão da água nas casas e poços a secar.

Este ano, em Fayetteville, a população de um bairro de classe alta, começou a sentir a pressão da água a baixar drasticamente nas suas casas. A companhia responsável pela distribuição, investigou e descobriu duas ligações de água ilegais, em escala industrial, que alimentavam – gratuitamente – um campus de data center localizado a sul do centro de Atlanta. No total, foram mais de 29 milhões de galões de água não contabilizada, o equivalente a 44 piscinas olímpicas.

Segundo a Data Center Watch, este é um dos raros temas que gera resistência transversal nos Estados Unidos. Pessoas ligadas aos republicanos tendem a preocupar-se com incentivos fiscais e a pressão sobre a rede elétrica, enquanto os democratas se focam mais nos impactos ambientais e no consumo de recursos.

No Texas, um estudo do Houston Advanced Research Center e da Universidade de Houston estima que os centros de dados no estado consumiram 49 mil milhões de galões de água em 2025, podendo atingir 399 mil milhões de galões em 2030, um volume equivalente a baixar o nível do maior reservatório dos Estados Unidos, o Lago Mead, em mais de quatro metros num ano.

Em Memphis, no Tennessee, residentes manifestaram-se contra os planos da xAI, empresa de Elon Musk, para usar turbinas a gás para alimentar um centro de dados. Os moradores contestaram as extrações diárias de água de uma rede pública já envelhecida e com problemas. Na Carolina do Sul, uma instalação da Google enfrentou forte oposição devido à intenção da empresa de recorrer a água subterrânea para arrefecer o centro de dados. A empresa acabou por recuar e mudar para fontes de água de superfície.

Mas o impacto destes centros não se limita à água. Uma análise da Bloomberg News revela que os custos de eletricidade em zonas próximas de centros de dados chegaram a aumentar 267% em apenas cinco anos. Por sua vez, um estudo de investigadores da Universidade Carnegie Mellon estima que a fatura média de eletricidade nos Estados Unidos possa subir 8% até 2030 devido aos centros de dados e à mineração de criptomoedas.

Mais de 230 organizações ambientalistas americanas pediram ao Congresso uma moratória nacional à construção de novos centros de dados, e em 2026 já foram apresentados mais de 300 projetos de lei sobre o tema em mais de 30 estados.

Irlanda, Uruguai e México: outros exemplos de tensão

Não é só nos Estados Unidos que existe preocupação e resistência à construção de centros de dados. A Irlanda é um dos países onde a pressão sobre a rede elétrica nacional se faz sentir atualmente. Em 2023, os centros de dados já representavam 21% de toda a eletricidade consumida no país, superando o consumo de todos os lares urbanos combinados. A situação levou o operador da rede elétrica nacional a suspender novas aprovações de centros de dados na zona de Dublin até 2028.

Na América do Sul a construção de centros de dados ameaça seriamente o abastecimento de grandes cidades no México e Uruguai, principalmente em zonas que estão a sentir graves efeitos de seca prolongada. Em Querétaro (México), os planos para acelerar a construção de centros de dados ameaçam comprometer o abastecimento de água às populações.

A construção de centros em zonas de elevado stress hídrico é uma das principais críticas dos contestatários, além da falta de transparência na realização de contratos. Por exemplo, na Virgínia (EUA) uma análise a 31 municípios com centros de dados em funcionamento ou propostos, encontrou acordos de confidencialidade entre os promotores e as autoridades locais em 25 deles, limitando o acesso público a informação sobre a escala dos projetos e as suas necessidades reais de recursos.

Em resposta às preocupações das populações, algumas empresas têm vindo a anunciar medidas de mitigação. A Microsoft está a implementar sistemas de recirculação de água em circuito fechado entre servidores e sistemas de refrigeração, eliminando a necessidade de reabastecimento constante com água potável.

Novas instalações a construir no Arizona e no Wisconsin, já este ano, devem poupar cerca de 125 milhões de litros de água por ano, cada uma, com este sistema.

O contexto português

Em Portugal, o Governo destaca a “matriz energética favorável” do país, com elevada produção de fontes renováveis, como argumento a favor da atratividade dos investimentos, considerando que esse fator distingue Portugal de outros mercados onde a pressão sobre a rede elétrica é maior.

Mas o debate é muito superficial e não há certezas sobre a pressão dos data centers no consumo de água no país, que no ano passado enfrentou uma seca prolongada.

O Estudo de Impacte Ambiental (EIA) do Data Center Sines 4.0, da Start Campus, publicado em maio de 2023, previa um consumo de água na ordem dos 275 m³ por dia quando estiver totalmente desenvolvido, o equivalente a cerca de 8,25 milhões de litros por mês.

A Start Campus alega que o projeto foi desenhado para evitar o consumo de água doce nas operações de TI, adotando soluções de arrefecimento por água do mar, mas numa zona bastante afetada pela agricultura intensiva e super intensiva, e que já manifesta graves problemas de escassez de água, é previsível que isto se possa tornar num grave problema.

O Governo aprovou o Decreto-Lei n.º 52/2026, de 16 de fevereiro que reforça e alarga os poderes exclusivos da empresa pública Águas de Santo André (AdSA) na gestão da água na região de Sines, com o objetivo declarado de responder à explosão de procura industrial de água gerada por grandes projetos, como o centro de dados da Start Campus. A medida visa responder a uma procura de água industrial que poderá mais do que triplicar na Zona Industrial e Logística de Sines (ZILS) devido à vaga de investimentos prevista.

No preâmbulo da Lei isso mesmo é reconhecido “(…) considerando, por um lado, a vaga de investimentos prevista para a ZILS e, por outro, o stress hídrico nos territórios abrangidos pelas bacias hidrográficas do rio Sado e do rio Guadiana, antecipa-se uma procura excecional e localizada de fornecimento de água para uso industrial, que não é suscetível de ser assegurada pelo referido sistema nas condições existentes“.

Resta saber até que ponto estes investimentos não trazem uma fatura associada: o colapso hídrico no litoral Alentejano.

STATUS: EM EXPANSÃO ACELERADA

Centros de Dados
Os impactos Ambientais

Por trás de cada pesquisa, vídeo ou pedido a uma IA está um edifício a consumir eletricidade e água, agora também em Portugal.

01 · ENERGIA

O consumo elétrico está a duplicar antes de 2030

Os data centers já gastam mais eletricidade do que muitos países inteiros — e a procura por Inteligência Artificial está a acelerar tudo.

415 TWh Eletricidade consumida pelos data centers globais em 2024 — cerca de 1,5% de toda a eletricidade do planeta (IEA).
945 TWh Projeção da IEA para 2030 — mais do que o dobro em apenas seis anos.
+17% Crescimento da procura elétrica dos data centers só em 2025, muito acima do crescimento elétrico global (3%).
Irlanda — eletricidade nacional usada por data centers21% → 32% até 2026
Dublin (capital irlandesa)79%
Estado da Virgínia (EUA)26%
02 · ÁGUA

Cada servidor que aquece, precisa de algo para o arrefecer

A maior parte dos data centers ainda usa água — muitas vezes potável — para manter os equipamentos a temperaturas seguras.

Retirada de água global por data centers (2024)560 mil milhões L/ano
Projeção para 20301,2 biliões L/ano

A métrica usada pela indústria chama-se WUE (Water Usage Effectiveness) — litros de água gastos por cada kWh consumido. A média do setor ronda 1,9 L/kWh; os data centers mais eficientes do mundo (Microsoft, Amazon) reportam valores entre 0,15 e 0,3 L/kWh.

1,9M litros de água por dia — o que um único data center grande pode consumir.

Cada quadrado ≈ uma piscina olímpica (2,5 milhões de litros)

03 · EMISSÕES

Hoje é pequeno. A trajetória é que preocupa

Os data centers ainda pesam pouco nas emissões globais — mas são um dos raros setores onde a tendência aponta para cima, não para baixo.

~1% Quota atual dos data centers e redes de transmissão nas emissões globais de CO₂ ligadas à energia (IEA).
+51% Aumento nas emissões operacionais reportado por uma grande tecnológica entre 2020 e 2024, por causa da expansão dos seus data centers.
12%/ano Taxa média de crescimento do consumo elétrico dos data centers desde 2017 — sustentada há quase uma década.
04 · PORTUGAL

De país periférico a destino europeu para data centers

Eletricidade mais barata que a maioria da Europa, alta percentagem renovável e ligação directa a cabos submarinos intercontinentais — Portugal tornou-se um destino procurado pelas grandes tecnológicas.

30+ Centros de dados já identificados em Portugal — o número exato varia por fonte e critério, mas a tendência é de forte crescimento.
€12 mM Investimento esperado em data centers em Portugal até 2030 (mil milhões de euros).
71% Percentagem de eletricidade de origem renovável em Portugal em 2024 — um dos argumentos mais usados para atrair investimento.

Lisboa & Loures

  • Equinix LS1 / LS2 — Prior Velho, Loures · +2.000 interligações
  • Equinix LS3 — prevista abertura em 2027
  • Merlin / Edged — campus de 180 MW em construção em Castanheira do Ribatejo
  • Maior concentração de centros de dados do país

Porto & Norte

  • Maia — WebTuga OPO Datacenter
  • Ermesinde — centro de dados em operação desde 2001
  • Riba de Ave — REN, infraestrutura crítica nacional
  • Guimarães — RNCA, novo centro no campus da Univ. do Minho (2026)

📍 Sines — o maior projeto de IA da Europa

O Start Campus, em Sines, está a construir um dos maiores campus de data centers da Europa para Inteligência Artificial — até 1,2 GW de capacidade total, distribuídos por seis edifícios. A Microsoft anunciou um investimento de 10 mil milhões de dólares no projeto. Em vez de água potável, o campus usa água do oceano para arrefecimento — devolvida à sua origem após o processo — evitando a pressão sobre os recursos hídricos da região.

1,2 GW
Capacidade final
$10 mM
Investimento Microsoft
275 mil L
Água potável / dia (vs. +1M L de um DC convencional)
05 · PORQUÊ PORTUGAL

Os argumentos que atraem as tecnológicas

Eletricidade barata

~€0,11/kWh para grandes consumidores, contra €0,27 na Irlanda e €0,18 na Alemanha.

🌱

Matriz renovável

71% da eletricidade consumida em 2024 veio de fontes renováveis — hídrica, eólica, solar e biomassa.

🌐

Hub de cabos submarinos

10 a 11 sistemas internacionais amarrados em Portugal, posicionando o país como porta de entrada digital para a Europa.

💼

Impacto económico

Até €26 mil milhões no PIB entre 2025 e 2030, com a criação de até 48.400 postos de trabalho.

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