O Estado prometeu a construção de um hotel de cinco estrelas até 2022. Seis anos depois, o monumento nacional continua devoluto e a degradar-se. Quando as obras finalmente começaram, em março deste ano, os moradores da Graça responderam com tapumes e uma petição.
No topo de uma das sete colinas de Lisboa, com vista sobre o rio Tejo, está um edifício do século XIII que já foi um convento, depois quartel militar, e que o Estado prometeu transformar num hotel de luxo. A promessa tem seis anos e ainda não foi cumprida porque a medida tem sido fortemente contestada.
O BE deu entrrada, no passado dia 22 de junho, de um Projeto de Resolução na Assembleia da República onde pede ao Governo a denúncia do contrato de concessão do Quartel da Graça ao Grupo Sana, afetando o eifício a habitação pública e a equipamentos para a comunidade.
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Os moradores também contestam o nascimento de mais um hotel naquela zona de Lisboa. Em setembro do ano passado, mais de 1.400 pessoas tinham assinado uma petição contra a transformação do Quartel da Graça num hotel. Os moradores do bairro pedem à Câmara de Lisboa para travar a concessão e tranformar aquele espaço num centro para a comunidade. Neste momento, a petição já ultrapassou as 10 mil assinaturas.
O Convento da Graça foi fundado pelos eremitas agostinhos e profundamente alterado depois do terramoto de 1755. Passou para as mãos do Exército português em 1834, com a extinção das ordens religiosas. Atualmente está classificado como Monumento Nacional desde 1910. Serviu como quartel e, mais tarde, acolheu serviços da GNR, até ficar progressivamente ao abandono.

Em dezembro de 2016, o primeiro governo de António Costa incluiu o Quartel da Graça numa lista de 30 monumentos a integrar no programa Revive, uma iniciativa para recuperar património histórico através da concessão de imóveis públicos a privados, que ficariam responsáveis pela exploração turística em troca de uma renda paga ao Estado.
O concurso do Quartel da Graça recebeu 13 candidaturas, e o vencedor foi anunciado em outubro de 2019. A escolha recaíu sobre o grupo hoteleiro Sana e o contrato de concessão foi formalizado a 17 de dezembro de 2019, através da Direção-Geral do Tesouro e Finanças, prevendo um investimento de 30 milhões de euros e a abertura de um hotel de cinco estrelas com 120 quartos até ao final do ano de 2022.
A Sana pagaria ao Estado uma renda anual de 1,79 milhões de euros durante os 50 anos de duração da concessão.
Seis anos de incumprimento
O prazo de 2022 não foi cumprido, e o novo prazo revisto, dezembro de 2023, também não. As obras nunca arrancaram e o edifício foi-se degradando progressivamente, com murais de azulejo destruídos, telhas e janelas partidas, infiltrações, paredes grafitadas e pormenores arquitetónicos danificados.
O Bloco de Esquerda apresentou no dia 22 deste mês, um projeto de resolução na Assembleia da República onde pede ao Governo que ponha fim à concessão, alegando “incumprimento contratual grave”, uma vez que as obras só começaram em março de 2026, mais de três anos depois do prazo contratual estabelecido. O partido aponta ainda um prejuízo financeiro relevante para o erário público, defendendo que seja recusado qualquer pedido de reequilíbrio financeiro da Sana e exigida a cobrança de todos os valores em dívida, juros e penalidades.
Questionada pela Euronews sobre os atrasos na obra, a Sana recusou comentar, alegando tratar-se de “matérias contratuais e de natureza institucional em acompanhamento“, mas garantiu não ter incumprido o contrato com o Estado.
As obras arrancam e a resistência também
Em novembro de 2024 surgiu o movimento “Parar o Hotel no Quartel“, que tem organizado assembleias populares no bairro, e criou uma petição pública em maio de 2025, que já reuniu milhares de assinaturas, suficientes para a petição poder ser discutida na Assembleia da República.
Em março de 2026, depois de meses de pressão dos moradores, o grupo Sana vedou o edifício com tapumes e afixou um alvará de obras datado de 6 de março.
Segundo os Censos do INE, o bairro da Graça tem vindo a perder população residente, com uma diminuição de 9% dos residentes na freguesia de São Vicente (onde se insere a Graça) entre 2011 e 2021. Os moradores alertam para o impacto concreto de um hotel com 120 a 200 camas e o movimento associado, com ubers, carrinhas de abastecimento, serviços do hotel, trabalhadores, etc., num bairro de ruas estreitas e antigas.
A mesma associação de moradores realizou um inquérito com quase meio milhar de respostas sobre o que deveria ocupar o espaço do Quartel da Graça, sendo eleitas propostas como habitação, residências para estudantes ou professores, espaços para crianças e idosos, equipamentos desportivos, bibliotecas e espaços de exposição.
A posição política
O atual presidente da Junta de Freguesia de São Vicente, André Biveti, do PS, posicionou-se publicamente contra o projeto: “Nós queremos a resolução do contrato, porque neste momento um hotel já não é aquilo que a nossa freguesia precisa“.
O Livre e BE apresentaram moções na Câmara Municipal de Lisboa, pela salvaguarda do Quartel da Graça, que foram chumbadas em reunião privada do executivo. No entanto, o presidente da Cârama, Carlos Moedas (PSD), comprometeu-se, em declaração de voto, a acompanhar o processo junto do Governo “para que o património público tenha a melhor utilização possível”.
Por sua vez, a vereação do PS na Câmara considerou essa posição insuficiente, com a vereadora Alexandra Leitão a sublinhar que “Lisboa enfrenta uma crise habitacional grave, perda de população residente em vários bairros históricos e carência de equipamentos coletivos“, um contexto que, defende, é muito diferente do que existia quando o contrato foi assinado, há mais de uma década e durante o Governo socialista.
No mesmo bairro, existem outros projetos hoteleiros semelhantes em curso, nomeadamente para o antigo Convento das Mónicas, (com 128 camas previstas) e para o Hospital da Marinha. Uma concentração de novos hotéis numa zona que os residentes descrevem como estando já sob forte pressão turística, e bastante congestionada de Alojamentos Locais.



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