
São conhecidos como “Pickpocket hunters” ou “caçadores de carteiristas” e multiplicam-se nas redes sociais, filmando e expondo publicamente suspeitos de furto nas ruas. O fenómeno já chegou a Portugal, e não é difícil encontrar em plataformas como o Youtube, Instagram ou Tik Tok, vídeos de caçadores de pickpocket’s a perseguir, e até agredir, pessoas suspeitas de furto nas ruas de Lisboa.
Este fenómeno é alimentado pela frustração com a reincidência e impunidade destes crimes e pela promessa de viralidade, e replica uma tendência já enraizada noutras capitais europeias, levantando questões sérias sobre os limites entre vigilância cívica e justiça popular.
Um fenómeno em crescimento
Nos últimos anos, multiplicaram-se em Lisboa páginas e contas nas redes sociais dedicadas a identificar, filmar e expor publicamente suspeitos de furto por carteira.
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Só a página “Pickpockets Lisbon” reúne mais de 72 mil seguidores no Instagram, e a “Patrulha Pickpockets Lisboa” soma 44 mil. Em alguns casos, estes grupos não se limitam a filmar os suspeitos. Chegam a atirar corantes e spray sobre a roupa e cara dos alegados carteiristas, com o objetivo declarado de os marcarem e prejudicar o seu “negócio”. O Pickpocket Hunter Lisbon tem mais de 17 mil seguidores no Instagram e equipara os suspeitos de serem carteiristas a ratazanas, no logotipo do grupo.
Em algumas situações, estes caçadores de carteiristas envolvem-se em situações de violência física, agredindo e detendo os suspeitos na rua.
Este fenómeno está, quase sempre, associado a grupos de extrema direita e anti imigração, que se dedicam a propagar a teoria da conspiração da “susbtituição populacional”, associando os imigrantes à criminalidade. Curiosamente, muitos destes “influencers” são eles próprios imigrantes em Portugal, enquanto outros, já foram condenados por furto.

Uma das percursoras do fenómeno foi a italiana Monica Poli que ficou famosa ao gritar nas ruas de Veneza a célebre frase “attenzione, borseggiatrici! Attenzione, pickpocket!”, enquanto membro do movimento “Cittadini Non Distratti” (Cidadãos Atentos), que se dedica a identificar carteiristas nas ruas de Veneza.
Mas em 2023, ficou a saber-se que Poli é membro da Lega Nord (Liga Norte), um partido de extrema direita italiano liderado por Matteo Salvini, e a notícia das suas ligações a grupos racistas espalhou-se pelo mundo inteiro. Ao mesmo tempo, as pessoas começaram a questionar porque razão Monica Poli gritava com alguns transeuntes, sem motivo aparente. Confrontada pelo jornal New York Times, Poli limitou-se a dizer que tem um sexto sentido que lhe permite identificar carteiristas, “É tão estranho dizer … Tenho algo dentro de mim e reconheço imediatamente“.
Esta forma de denúncia é, obviamente bastante preocupante, porque nenhum cidadão está livre de ser acusado publicamente de ser carteirista, sem qualquer tipo de prova. Em muitos casos, basta ter aprência “romena” para ser imediatamente acusado em público. No caso de Poli, basta ser cigano. A italiana foi acusada de se dedicar, não a denunciar pickpockets, mas a afastar as pessoas ciganas das praças de Veneza.
Isto começou a gerar muitas críticas em relação à atuação da vereadora italiana da Lega Norde em Veneza, cujo partido também usa um discurso racista contra o povo cigano, além de uma retórica incendiária direcionada a requerentes de asilo, imigrantes e comunidade LGBTQ+.
Basicamente, Monica Poli é o que se costuma chamar um caso de “milkshake ducking“, ou seja, uma pessoa que inicialmente é vista de forma positiva pelas suas ações, até se descobrir algo questionável a seu respeito. Desde que foi conhecida a sua ligação Lega Nord, a sua popularidade e credibilidade não parou de descer.
Quando os denunciantes são afinal os criminosos
As ações dos caçadores de carteiristas têm vindo a tornar-se cada vez mais extremas. Se Monica Poli se limitava a gritar com os suspeitos para alertar os turistas, alguns destes influencers vão mais longe ao perseguir e até deter, ilegalmente, os suspeitos.
Recentemente em Lisboa, um grupo de brasileiros que se dedicam a produzir este tipo de conteúdo, gravou imagens com o Youtuber britânico Curtis Arnold, conhecido pelo canal de DJE Media, onde são publicados vários vídeos anti imigração e de combate aos pickpockets.
No vídeo, que gerou bastante polémica e se tornou viral, é possível ver o grupo de influenciadores, acompanhado de seguranças bastante musculados, a sequestrar e espancar um suspeito com a roupa e a cara cobertas de um spray vermelho. Mais tarde no vídeo é possível ver um agente da polícia a deter o indivíduo e a dar informações aos influencers sobre a sua nacionalidade. Curtis Arnold diz então para a câmara “Romeno! Um tipo romeno a roubar aqui em Portugal. Não é bom… fizemos um bom trabalho“.
Entretanto, o agente diz ao suspeito “Olha! Eles todos viram” apontando para os influencers que estão à volta do suspeito, claramente assustado e, aparentemente, ferido. Os influencers riem alto e gritam para o rapaz “volta para a Roménia!“. Após revistar a mochila do suspeito, o polícia manda-o embora, sem qualquer acusação. Nada roubado foi encontrado na posse da vítima, nem provas que tenha participado em algum assalto. No entanto, os agressores ficam impunes e ainda se gabam da façanha. O vídeo gerou milhões de visualizações.
Curtis Arnold tem cerca de 250 mil subscritores nas redes sociais e um vasto historial de condenações que incluem, curiosamente, uma condenação por assalto, além de perversão do curso da justiça e condução sob efeito de álcool.
Em 2018, foi condenado por fraude, depois de visitar ginásios e enganar mulheres para que fizessem de modelos de leggings, tirando fotografias sexualizadas e publicando-as nas redes sociais sem o seu consentimento.
Em 2023, disse ao jornal britânico The Sun que “não eram mulheres jovens” que fotografava nos ginásios, depois de surgirem informações que, algumas das mulheres, seriam menores de idade. Curtis também ganhou notoriedade negativa depois de filmar e divulgar publicamente na internet o corpo de Nicola Bulley, uma mulher que morreu afogada no rio Wyre, em Lancashire.

Noutro vídeo publicado no seu canal de Youtube, Curti Arnold e os seus dois seguranças, aparecem na praça do Martim Moniz onde começam a gravar pessoas, principalmente imigrantes, à espera de reações. Depois de várias pessoas pedirem para não gravar a sua cara, a situação descamba em dsacatos e agressões violentas na praça. Os três influencers atacam as pessoas com um tipo de gáz e acabam por ser expulsos do local por várias pessoas.
Entram numa esquadra para apresentar queixa, com as câmaras a gravar, mas a polícia parece já estar ciente deste fenómeno de procura de sensacionalismo e visualizações. Um dos influencers acaba por se exaltar com o polícia e diz “eu trabalho imenso para vocês”, ao que o polícia pergunta “Trabalhas?!… Nota-se”. Mais tarde na praça, com 4 agentes da polícia, tentam identificar as pessoas que os expulsaram da praça. Os polícias insistem para que Curtis pare de gravar, mas ele mente à polícia e continua a gravar a cena. Curtis grita para os imigrantes “Go back for where you came from!“, ou seja, “volta para a tua terra”, mostrando a verdadeira face destes grupos.
O truque deste tipo de influencers consiste em criar situações de conflito e alimentar a sensação de impunidade e injustiça na população. É essa exploração das emoções que alimenta o algorítmo e lhes garante milhares de “likes” e comentários nos vídeos, fazendo aumentar considerávelmente a audiência.
A tática resulta. Mas será legítimo que estes grupos de caçadores se possam substituír à polícia ou aos tribunais? Até que ponto não podem estar a ser cometidas injustiças? E num estado de direito, não deve existir a presunção de inocência e o direito à defesa de quem é acusado? Este tipo de justiça popular, pode ter consequências graves, porque acaba por legitimar a violência e, com isso, aumentar a própria criminalidade.
A resposta institucional: entre a cautela e o alerta
Quem comete este tipo de crimes de pequenos furtos, é muitas vezes detido e, na maioria das vezes, sai do tribunal em liberdade, com “termo de identidade e residência“. Para a obtenção de resultados mais efetivos, é preciso que os prevaricadores sejam apanhados em flagrante delito ou que existam provas suficientes para os condenar. E isso não é, propriamente, uma prioridade para a polícia.
Desde 2018, através da Força Conjunta de Combate aos Carteiristas (F3C), foram detidos 638 carteiristas em Portugal, dos quais apenas 61 cumpriram pena de prisão efetiva. Em 2024, registaram-se 5.762 ocorrências relacionadas com este tipo de furto, quase o dobro do número registado em 2020.
O aumento substancial do turismo, especialmente no Porto e Lisboa, explica este crescimento, já que, são habitualmente os turistas o principal alvo dos carteiristas.
O fenómeno não é novo em Lisboa. Há décadas que a cidade convive com este tipo de crime. Alguns carteiristas até se tornaram famosos na capital, sendo presença assídua no elétrico 28, na Baixa/Chiado, Rossio ou no Castelo de São Jorge.
A PSP já reagiu publicamente a este fenómeno da internet, alertando para os riscos legais desta prática. A exposição pública de suspeitos pode configurar um ilícito criminal, cabendo ao Ministério Público avaliar cada situação concreta. A própria polícia sublinha que a repressão de crimes compete às autoridades competentes e que não incentiva nem apoia qualquer tipo de movimento que atue fora da lei.
A Lei não reconhece a cidadãos comuns o poder de investigar, identificar publicamente, perseguir ou castigar suspeitos. Esse poder está obviamente reservado às polícias, Ministério Público e tribunais.
Um padrão internacional
O que acontece em Lisboa não é exclusivo de Portugal, mas uma réplica de um padrão já bem estabelecido noutras grandes cidades turísticas europeias.
Em Madrid e Barcelona, o fenómeno está ainda mais consolidado. A página Patrulla Madrid reúne 715 mil seguidores, e existe mesmo uma “caderneta de cromos” colaborativa entre grupos portugueses e espanhóis, onde suspeitos são identificados não apenas com fotografias, mas com a bandeira do país de origem e, em alguns casos, o próprio nome.
Em Barcelona, a Patrulla Ciudadana Barcelona faz ações nas estações de metro e autocarros, filmando suspeitos em tempo real e publicando os vídeos nas redes sociais, com a justificação declarada de que a exposição pública “magoa mais” os suspeitos do que qualquer ação policial.
Estes grupos têm sido alvo de relatos muito preocupantes em fóruns de viajantes internacionais, que descrevem situações em que turistas comuns – incluindo pessoas claramente alheias a qualquer prática criminosa – foram abordadas de forma agressiva por integrantes destes grupos, acusadas sem qualquer fundamento de serem carteiristas, com base unicamente na aparência física ou em comportamentos perfeitamente inocentes, como usar auriculares sem fios. Estes episódios ilustram bem o risco deste tipo de justiça. A ausência de qualquer mecanismo de verificação, contraditório ou responsabilização quando a acusação informal se revela errada.
Na prática, qualquer um de nós pode se ver na mira destas patrulhas.
Em Paris, Roma e Londres, documentaram-se fenómenos semelhantes de “auditores” e “caçadores” que filmam confrontos de rua, incluindo situações com suspeitos de furto ou pessoas em situação de vulnerabilidade social com o único objetivo de gerar visualizações e engagement nas plataformas digitais.
Este modelo de negócio digital, baseado na exposição e humilhação pública de suspeitos, corre o risco de transformar a luta legítima contra a criminalidade numa forma de entretenimento que prescinde das garantias mínimas que distinguem um Estado de direito de um sistema de justiça popular.
A frustração com a lentidão da Justiça e com taxas de reincidência elevadas é compreensível e, em larga medida, justificada pelos próprios números oficiais. Mas a resposta a um sistema de justiça que falha não pode ser o recurso a um sistema paralelo, sem juízes, sem direito de defesa e sem outro critério de prova que não seja a convicção de quem está a gravar.



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