quase 200€ por ano até 2031! Turismo aéreo pode aumentar ainda mais as rendas em Portugal, alerta estudo

Um novo estudo, divulgado hoje, traz números alarmantes relacionados com o aumento de turismo e o seu impacto brutal nos preços da Habitação. Portugal é um dos países mais afetados.

Um novo estudo encomendado pela Federação Europeia dos Transportes e Ambiente (T&E) conclui que o crescimento contínuo do turismo transportado por avião está a alimentar a crise da habitação em vários países europeus, com Portugal a aparecer entre os mais afetados.

A associação ambientalista ZERO, que integra a T&E, considera os resultados um alerta para a necessidade de mudar o modelo de desenvolvimento turístico do país e questiona a expansão da capacidade aeroportuária na região de Lisboa.

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A análise, realizada pela New Economics Foundation (NEF) e encomendada pela T&E, estima que as rendas médias anuais, em cinco das maiores economias europeias dependentes do turismo, vão subir até 250 euros por ano, entre 2026 e 2031, como consequência direta do crescimento do turismo transportado por via aérea.

Em termos absolutos, a Irlanda deverá registar o maior aumento, com mais 250 euros por ano. Em termos relativos, Grécia, Portugal e Espanha são os países com as subidas mais acentuadas, entre 160 e 220 euros. Estes valores acrescidos ao valor atual das rendas da habitação, vão agravar o pesadelo de quem procura acesso a habitação.

Segundo o comunicado divulgado hoje pela associação ZERO, a estimativa para Portugal aponta para um aumento da renda média anual das casas, em áreas de maior pressão turística, de 193 euros por ano para novos contratos, ao longo dos próximos cinco anos. O estudo aponta especificamente a contribuição do transporte aéreo nesta equação, considerando que Portugal se encontra entre os países que poderão sofrer “uma das maiores pressões sobre os preços da habitação e das rendas” devido a este fator.

Isto num momento em que o país se prepara para investir cerca de 8,5 mil milhões de euros num novo aeroporto em Lisboa.

A análise destaca ainda que as regiões europeias com maior contestação local ao excesso de turismo, como as Ilhas Baleares, Creta e a Madeira, que registam os volumes mais elevados de chegadas estrangeiras por residente, com a grande maioria a chegar por via aérea.

Salários do turismo não acompanham o crescimento

Um dos dados mais relevantes do estudo é que o crescimento do turismo aéreo não se traduz em melhores salários para os trabalhadores do setor da aviação. Pelo contrário, os países com maior volume de chegadas turísticas por via aérea, como Itália, Espanha e França, registam o pior desempenho em termos de salários reais para trabalhadores do turismo, deixando o pessoal do setor hoteleiro local com salários a cair, ao mesmo tempo que o custo de vida sobe.

Em simultâneo, uma fatia crescente do dinheiro gasto pelos turistas em alojamento, é captada por grandes empresas em Espanha, França, Grécia e Itália, sem que isso se reflita em ganhos salariais para os trabalhadores locais do turismo.

A responsável pela campanha Travel Smart da T&E, Denise Auclair, resume a contradição de tentar gerir a sobrecarga turística enquanto se expandem simultaneamente os aeroportos de Dublin, Barcelona ou Lisboa, como “uma batalha perdida”. Para a organização, se os governos querem proteger a habitação acessível e cumprir as metas climáticas, devem travar de imediato a expansão de aeroportos e repensar as suas estratégias de turismo.

Menos investimento produtivo, mais imobiliário

O estudo aponta ainda para um efeito menos visível: o aumento dos preços imobiliários reduz o investimento empresarial no resto da economia, à medida que os investidores preferem canalizar o seu investimento para mais propriedade, em vez de investir setores produtivos e inovadores, como equipamentos de transporte ou tecnologias de informação. Segundo as projeções, entre 2019 e 2031, a queda no investimento empresarial deverá ser mais acentuada na Grécia, em Portugal, na Espanha e na Itália, com Itália e Espanha a perder, em termos absolutos, 1,1 e 1,0 mil milhões de euros de investimento anual, respetivamente.

O diretor de política económica da New Economics Foundation, Alex Chapman, sublinha que a expansão de aeroportos é frequentemente acompanhada da promessa de benefícios económicos generalizados, mas os dados desafiam essa ideia, uma vez que indicam que os empregos criados com estas infraestruturas pagam salários baixos, uma compensação fraca face ao aumento dos custos de habitação, à sobrecarga das infraestruturas e ao agravamento da poluição.

Segundo o investigador, estes impactos prejudicam ainda a economia em geral, deixando os trabalhadores “presos” pelos elevados custos da habitação, sem capacidade para mudar de emprego ou investir nas suas competências.

A reação da ZERO em Portugal

Em comunicado, a ZERO sublinhou que o estudo demonstra que o aumento contínuo das chegadas por via aérea não só agrava os impactos ambientais e climáticos, como também contribui para a pressão sobre o mercado habitacional, reduz o investimento produtivo na economia, e não assegura uma melhoria significativa dos salários ou da qualidade de vida das populações.

A associação destacou que estes resultados aumentam as preocupações em relação à construção do novo aeroporto de Lisboa, e ao aumento da capacidade aeroportuária em curso, considerando que, aos impactos das emissões de gases com efeito de estufa, ruído, poluição atmosférica, degradação da biodiversidade e pressão sobre infraestruturas urbanas, se junta agora um efeito económico que tem sido frequentemente negligenciado: o agravamento da crise da habitação.

Em declarações à RTP, o presidente da ZERO, Francisco Ferreira, defendeu a criação de uma “taxa de partida” e a limitação da expansão aeroportuária para travar simultaneamente a crise habitacional e os impactos climáticos.

Os resultados do estudo surgem num momento em que o investimento em infraestruturas aeroportuárias continua a acelerar em Portugal e na Europa. Em Portugal, decorrem as obras de expansão do terminal do aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa, atualmente o aeroporto mais movimentado do país, com mais de 36 milhões de passageiros em 2025, estando ainda projetada a construção do Novo Aeroporto de Lisboa, em Alcochete, projeto que está em processo negocial.

A T&E recomenda neste estudo que a próxima Estratégia Europeia para o Turismo Sustentável, da Comissão Europeia, inclua uma revisão crítica dos impactos do turismo aéreo internacional sobre as comunidades locais e o mercado da habitação.

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