A Polícia Judiciária está a levar a cabo uma mega operação em Vila Nova de Gaia, designada “Águas Turvas“, que já levou à detenção de 13 pessoas, incluindo a diretora da empresa municipal Águas de Gaia, Eunice Fonseca, empresários de vários setores, assim como outros funcionários e altos quadros da empresa municipal. Foram ainda cumpridos cerca de 30 mandados de busca, naquela que a PJ descreve como uma investigação a “um amplo esquema organizado de criminalidade económico-financeira”.
Em setembro do ano passado, Miguel Lemos Rodrigues, ex-presidente do Conselho de Administração das Águas de Gaia, já tinha sido acusado de corrupção, tendo sido suspenso.
A operação desencadeada na terça-feira, 26 de maio, surge na sequência de suspeitas de corrupção ativa e passiva, abuso de poder e branqueamento de capitais. Os factos em investigação abrangem as administrações do ex-presidente da Câmara de Vila Nova de Gaia, Eduardo Vítor Rodrigues (PS), que liderou a câmara entre 2013 e 2025, e não é totalmente claro se incidiram também na atual gestão de Luís Filipe Menezes (PSD/CDS/IL). O autarca de Gaia dizer que não, afirmando que as a investigação se centra apenas no período entre 2023 e outubro de 2025, altura em que assumiu o mandato.
No entanto, o despacho judicial indica que a investigação se estende, pelo menos, até fevereiro deste ano.
A investigação aponta para a existência de práticas reiteradas e coordenadas destinadas a condicionar decisões, moldar procedimentos, antecipar resultados e neutralizar mecanismos de controlo, através da utilização de canais informais de comunicação, nas Águas de Gaia, uma empresa municipal detida a 100% pela Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia.
A PJ avança revela que apreendeu viaturas de alta cilindrada, saldos bancários e instrumentos financeiros, três armas de fogo e dezenas de milhares de euros em dinheiro.
Segundo um comunicado emitido pela PJ, os suspeitos foram responsáveis pela celebração de contratação pública com empresas suspeitas desde o ano de 2024, num valor global de oito milhões de euros. Foram ainda apreendidas viaturas de alta cilindrada, saldos bancários, instrumentos financeiros, três armas de fogo e dezenas de milhares de euros em dinheiro.
Esta investigação, foi iniciada há 17 meses, e teve na sua origem uma denúncia anónima realizada em 2024, que dava conta de alegados comportamentos ilícitos e jantares anuais onde eram entregues envelopes com dinheiro.
Segundo um despacho judicial, a que a agência Lusa teve acesso, entre 2009 e 3 de fevereiro de 2026, um empresário da construção, que faz parte dos 13 detidos na terça-feira pela PJ, conseguiu a adjudicação de 98 contratos públicos, que totalizaram quase 11 milhões de euros, 81 deles celebrados com a ADGAIA. O empresário emitiu faturas à empresa municipal no montante global de cerca de 8,5 milhões de euros.
Esta faturação representa 73% da sua faturação total, e segundo o despacho divulgado pela LUSA, nestes dois anos, o arguido efetuou levantamentos bancários superiores a 45 mil euros, que serviriam para supostos pagamentos em numerário aos funcionários agora detidos, alguns dos quais eram diretores.
Alegadamente, este empresário, entre janeiro de 2024 e outubro de 2025, pagava almoços e jantares aos funcionários com o objetivo de continuar a ser beneficiado em futuras adjudicações. Segundo o jornal “O Gaiense”, o empresário em causa é António Santos Mota.
Reações políticas
O atual presidente da Câmara de Gaia, Luís Filipe Menezes, reagiu à operação demarcando-se de qualquer responsabilide nas acusações que são feitas, afirmando estar “feliz” com as buscas realizadas e defendendo que “há muito que vínhamos a dizer que tínhamos um enorme polvo semeado por tudo aquilo que é a construção do edifício municipal”. Segundo o autarca, “os factos são entre 2023 até ao dia que nós entrámos na Câmara”, remetendo as suspeitas para o período anterior ao seu mandato.
Já o ex-presidente da autarquia, Eduardo Vítor Rodrigues, reagiu através de uma publicação no Facebook, afirmando que “as diligências nas Águas de Gaia não envolvem políticos municipais de nenhum mandato”. O antigo edil socialista sublinhou que “alegadamente, envolvem comportamentos de técnicos que já o eram antes de eu lá chegar e que continuaram a sê-lo depois de eu sair”.
Entretanto, os vereadores do Partido Socialista anunciaram que vão requerer uma reunião extraordinária da Câmara Municipal, acusando o atual presidente da autarquia de “procurar descartar-se de responsabilidades e de fazer aproveitamento político” do caso. Os socialistas exigem ainda uma auditoria financeira independente à gestão da empresa municipal nos últimos 15 anos.
Os 13 detidos pela PJ serão presentes a primeiro interrogatório judicial já esta quinta-feira, para aplicação de eventuais medidas de coação. O processo corre no Departamento de Investigação e Ação Penal do Porto.

Comentários