Vivian Maier – Antologia Exposição de Vivian Maier no Porto a caminho dos 40 mil visitantes

O 41N visitou a exposição “Vivian Maier – Antologia” que está patente no Centro Português de Fotografia, no Porto e entrevistou Rui Pereira, diretor da Terra Esplêndida.

André Peyxoto
Fotografia André Peyxoto

No dia 10 de junho, a receita da exposição vai reverter para a UNICEF Portugal no âmbito do apoio às populações afetadas pelos recentes sismos na Venezuela.

Vivian Maier CPF Porto
Exposição de Vivian Maier no CPF, no Porto. (foto: André Peyxoto)

O Centro Português de Fotografia (CPF), instalado na antiga cadeia da Relação na Cordoaria (Porto), tem patente até 30 de agosto uma exposição de fotografia que assinala os 100 anos do nascimento de Vivian Maier, uma fotógrafa americana (1926-2009) que, na verdade, nunca estudou fotografia nem expôs os seus trabalhos, durante os seus 83 anos de vida.

O 41N visitou a exposição, que é promovida pelo CPF em parceria com a Terra Esplêndida – Produções Culturais, empresa responsável por trazer a obra de Vivian Maier a Portugal, proporcionando a oportunidade de apreciar uma pequena parte do trabalho que Maier nos deixou, num vasto arquivo com mais de 120 mil negativos, incluindo um número infindável de autorretratos captados ao longo dos anos, dos quais, cerca de 150 fotografias foram selecionadas para esta exibição, que já passou por Nice, São Paulo, Nova Iorque, Chicago, Roma, Viena, Berlim, Seul, entre outras.

É impossível não esboçar um sorriso perante o sentido de humor da fotógrafa, que nos leva até às ruas sujas de cidades norte americanas dos anos 50 e 60, como Nova Iorque e Chicago, com cenas simples do quotidiano, algumas delas impactantes e reveladoras do olhar atento, perspicaz e sensível de Maier.

A fantástica história de vida de Vivian Maier, por si só, já justifica uma visita à exposição, que se trata de uma rara oportunidade para apreciar o trabalho desta mulher, que era ama de profissão, mas que tinha uma grande devoção pela fotografia e se tornou num verdadeiro fenómeno de sucesso póstumo.

O espólio foi dividido em várias partes, pela curadora francesa Anne Morin, entre “Cenas de rua”, “Infância”, “Formalismo”, “Retratos”, “Autorretratos” e “Fotografias a cores” (fotografias obtidas a partir de 1965). Existe ainda um espaço para apresentação dos filmes de Vivian Maier, gravados em Super 8.

Vivian Maier exposição no Centro Português de Fotografia no Porto
(foto: André Peyxoto)

A exposição tem um caráter solidário, com parte da receita a reverter para a Associação Acreditar, associação de pais de crianças e jovens que têm, ou tiveram, cancro. No dia 10 de julho, a Terra Esplêndida e o CPF promovem o Dia Solidário pela Venezuela, com a totalidade da receita de bilheteira da exposição “Vivian Maier – Antologia” a reverter para a UNICEF Portugal, para apoio às populações afetadas pelos recentes sismos na Venezuela.

Entrevista com Rui Pereira, diretor da Terra Esplêndida

O 41N conversou com Rui Pereira, diretor da Terra Esplêndida, que nos explica como surgiu a oportunidade de trazer este espólio à cidade do Porto, os motivos para associar o evento à solidariedade com as crianças e o percurso de Vivian Maier enquanto fotógrafa anónima, que hoje é reconhecida em todo o mundo, depois do seu trabalho ter sido encontrado, por mero acaso, por John Maloof, um produtor cinematográfico americano.

P. – Rui Pereira, de forma muito resumida, será que nos pode explicar esta curiosa história da Vivian Maier, uma fotógrafa que, na verdade, nunca estudou fotografia, nem expôs durante a sua vida, e como é que surgiu a oportunidade de trazer esta exposição à cidade do Porto? 

R.P. – A Terra Esplêndida é uma empresa que trabalha essencialmente na área da fotografia. Nós vamos fazer 20 anos em outubro, e quando começámos, a nossa ideia era mesmo trazer a Portugal exposições de fotografia que habitualmente não passam por cá. Nessa altura, tínhamos alguma dificuldade da parte dos fotógrafos que não conheciam Portugal, não lhes interessava, o mercado não era interessante, mas as coisas aos poucos foram-se alterando e nós, enquanto Terra Explêndida, já apresentámos aqui em Portugal Sebastião Salgado, Frida Kahlo ou Bert Stern. Neste caso, nós tínhamos muito a vontade de apresentar uma exposição da Vivian Maier e, como temos desenvolvido, ao longo dos anos, uma parceria com o Centro Português de Fotografia, pareceu-nos que seria a casa ideal para receber esta exposição. A coincidência das coincidências, é que este é o ano do centenário de nascimento da Vivian Maier. Então, foi uma luta para conseguirmos que a exposição viesse a Portugal nesta data, mas conseguimos e aí está. Já vamos a caminho dos 40 mil visitantes e ainda vai estar aberta até 30 de agosto. É uma oportunidade única, porque eu penso que, nos próximos anos, Vivian Maier não será apresentada em Portugal, por isso, estamos muito felizes por termos conseguido trazer a exposição, termos conseguido levá-la ao Porto, ao Centro Português de Fotografia, e que a recepção das pessoas esteja a ser muito positiva.

P. – As pessoas que visitam a exposição, geralmente já conhecem a história de Vivian Maier, ou acabam por descobrir durante a exposição? 

R.P. – Algumas pessoas já conhecem alguma coisa da Vivian Maier, já ouviram falar ou já viram o documentário, mas a maioria nunca teve a oportunidade de estar frente a frente com as suas fotografias. Eu estou muitas vezes na exposição e falo com muitas das pessoas, e elas saem muito emocionadas com o que viram, com a exposição, porque efetivamente é uma exposição de qualidade, é uma excelente fotógrafa, como há pouco falámos, ela não tem formação nenhuma, ela é amadora, mas conseguiu algo muito raro que é uma qualidade que emociona a quem vê as fotografias, quem vê a exposição. Esta exposição também tem uma parte de cor, que é a maior seleção de fotografias de cor [de Vivian Maier] que alguma vez é apresentada numa exposição, e as pessoas saem encantadas. Saem também surpreendidas, porque muitas delas não sabem que ela fez os vídeos. Aqueles vídeos são uma surpresa para as pessoas, mas na essência, conhecem, ouviram falar, mas o contacto direto com as fotografias toca-lhes muito. São muito raras as pessoas que não gostam da exposição. O espaço onde ela está, o Centro Português de Fotografia, também traz uma carga muito forte. O espaço é fantástico e acho que casa muito bem com a exposição.

Vivian Maier exposição no Centro Português de Fotografia no Porto
Vivian Maier exposição no Centro Português de Fotografia no Porto (foto: André Peyxoto)

P. – O espólio de Vivian Meyer está dividido por várias pessoas. Como é que foi feita a recolha deste material?

R.P. – A obra não está muito espalhada, se não me engano, estará na posse de duas pessoas. Quem tem a maioria é o John Maloof, foi ele que comprou por 380 dólares o espólio em leilão. A Vivian Maier deixa de conseguir pagar, por dificuldades económicas, os armazéns, os cacifos onde o material estava arquivado, e o John Maloof compra, um bocadinho sem saber o que é que está a comprar, abre, vê que são algumas fotografias, que são negativos, tenta investigar um bocadinho e não dá grande importância. Isto em 2007. Em 2009, volta a olhar para o material que comprou, vê que tem ali alguma coisa que pode ser interessante, tenta descobrir quem é esta Vivian Maier e descobre que ela já tinha morrido. Ela morre em 2009. Começa a publicar algumas fotos num blog de fotografia amadora e aquilo transforma-se num fenómeno. A Anne Morin, que é curadora da exposição, vê numa galeria em Nova York, quatro fotografias, fica encantada, vai falar com o John Maloof e descobre este espólio. Começa a estudá-lo e é ela, Anne Morin, a grande estudiosa e a grande responsável por Vivian Maier se transformar naquilo que é hoje. Um grande nome e uma das grandes fotógrafas do século XX.

P. – Esta exposição também tem uma vertente solidária, e parte da receita reverte para a associação Acreditar. Como é que surgiu esta possibilidade de dar este carácter solidário à exposição?

R.P. – Bem, nós, a Terra Esplêndida e o CPF, sempre que apresentamos uma exposição, queremos que ela reverta para uma instituição de solidariedade. Já o fizemos quando apresentámos a Frida Kahlo, foi a Associação Salvador. Neste caso é a Associação Acreditar. Se reparar, há sempre uma ligação, ou nós tentamos que haja uma ligação. A Vivian Maier, foi ama durante quase toda a vida dela. Cuidou de crianças. E quando nós pensámos numa associação a quem nós podíamos ajudar, fomos para a Associação Acreditar, porque apoia crianças e os pais dessas crianças, que estão a passar por uma situação de cancro. Pareceu-nos mais do que óbvio que fosse a associação Acreditar. Falámos com eles e disseram que sim. Estamos muito satisfeitos que, no final, uma parte da bilheteira vá para Acreditar e que possa ajudar essas crianças e esses pais.

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