
No primeiro 10 de Junho do seu mandato, o Presidente da República discursou em Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, onde defendeu um país unido, políticas que fixem talentos e uma relação de equilíbrio com os aliados internacionais.
António José Seguro presidiu, pela primeira vez, às comemorações do dia 10 de junho, o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, que este ano se realizaram na Ilha Terceira, nos Açores, como forma de assinalar os 50 anos da consagração constitucional da Autonomia Regional dos Açores e da Madeira (alcançada em 1976).
A escolha dos Açores para as comemorações deste ano, ganhou uma leitura geopolítica, dada a proximidade com a Base das Lajes, e tendo em conta a polémica relacionada com a utilização da base pelos Estados Unidos, no contexto do conflito no Médio Oriente, que gerou amplo debate no país, com críticas e dúvidas em relação à atuação do Governo neste processo.
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A cerimónia militar do 10 de junho, decorreu no Cerrado do Bailão, em Angra do Heroísmo, ao final da manhã de hoje, com as habituais honras militares, uma homenagem aos mortos em combate e um desfile militar, encerrado com a passagem de uma esquadrilha de quatro aviões F-16. Seguiu-se um almoço com a população no Pavilhão Multiusos do Porto Judeu, uma cerimónia de condecoração da Universidade dos Açores e o arriar da bandeira no Pátio da Alfândega de Angra do Heroísmo.
O Presidente da República escolheu Miguel Monjardino, professor universitário e especialista em relações internacionais, para presidir às comemorações. Monjardino, natural de Angra do Heroísmo, avisou no seu discurso oficial que “o mundo multilateral e apoiado por instituições internacionais que nos foram muito benéficas está a desaparecer“, transformando-se num “mundo muito mais hierárquico, complexo e fragmentado“, e fez críticas mais diretas à atual administração norte-americana, que classificou como “uma cortina de medo que tem vindo a descer sobre Portugal“.

Seguro e o combate ao “vírus da polarização”
O tema central do Presidente da República, foi o apelo ao diálogo e à moderação política no país. Seguro criticou o que designou de “vírus da polarização, que tende a substituir a argumentação, o debate e a negociação“, apelando às chamadas “palavras do meio” – aquelas que “não nascem entre muros, mas nos espaços abertos” e que funcionam como um “convite ao diálogo e ao encontro“.
O Presidente afirmou ainda que a sua eleição, em fevereiro (a tomada de posse foi a 9 de março), “foi marcada pelo desejo de unir os portugueses e de unir Portugal” e que este é um tempo que “pede coragem para fazer escolhas difíceis sem ceder ao populismo” e para “dizer a verdade mesmo quando é desconfortável“.
Habitação, salários e fuga de talentos
Não faltaram os recados ao Governo da AD no discurso de António José Seguro, nomeadamente no que se refere às principais dificuldades dos portugueses, e em particular dos mais jovens, como os salários baixos ou os preços absurdos da habitação. Seguro afirmou na Terceira que “o que se ganhou em qualificação não tem sido acompanhado em remuneração” e que “a habitação é praticamente inacessível e esgota qualquer orçamento familiar“.
Para Seguro são precisas “políticas que fixem talento em vez de o exportar“, e “salários que reflitam a produtividade e qualificação dos trabalhadores“, além de um “mercado de habitação que permita aos jovens construir uma vida no país onde nasceram ou estudaram“. Defendeu ainda que “o Estado e as empresas têm de reconhecer que o mercado de trabalho ainda não aprendeu a recompensar adequadamente o conhecimento e a inovação“.
Política externa e equilíbrio com os aliados
Sobre a posição internacional do país, o Presidente da República apelou a uma “relação de equilíbrio” com os nossos aliados, sustentando que a “autonomia estratégica europeia” é conciliável com a “defesa transatlântica“.
No entender de Seguro, Portugal deve alargar o seu horizonte no continente americano, promovendo cooperações com o Canadá e com o bloco do Mercosul, e não apenas com Washington, aproveitando para salientar a posição estratégica dos Açores “no ponto estratégico da relação entre a Europa e o continente americano, entre o Atlântico Norte e as grandes rotas marítimas e aéreas“.
Base das Lajes – silêncio institucional
Discursando nos Açores, o Presidente evitou falar diretamente da polémica relacionada com a Base das Lages. No seu discurso oficial, limitou-se a recordar os “especiais deveres” de Portugal relativamente aos Açores, sem qualquer referência explícita à base militar. Horas antes, o ministro dos Negócios Estrangeiros Paulo Rangel tinha admitido, em entrevista à Antena 1, a possibilidade de rever o acordo de uso da base com os EUA, um assunto que não mereceu qualquer comentário do Presidente, ficando por saber se a questão já foi (ou vai ser) articulada com o Governo, tendo em conta que o Presidente da República é o Comandante Supremo das Forças Armadas.
Sobre os 50 anos da consagração constitucional da Autonomia Regional dos Açores e da Madeira, lembrou a importância da unidade nacional, considerando que as regiões autónomas são “pilares fundamentais para a coesão nacional” e para um “desenvolvimento equilibrado”.
Apesar de ter estado na véspera com a comunidade de emigrantes e luso descendentes no Luxemburgo, para celebrar o Dia de Portugal acompanhado pelo primeiro-ministro Luís Montenegro, Seguro fez uma referência direta à diáspora, afirmando que “Portugal pensa em vós. Portugal precisa de vós. E Portugal estará sempre de braços abertos a receber-vos, se e quando assim o decidirem.“

Luís Montenegro não proferiu um discurso oficial na cerimónia militar de Angra do Heroísmo, uma vez que o protocolo do 10 de Junho reserva as intervenções formais para o Presidente das Comemorações e para o Chefe de Estado, mantendo-se na primeira fila da assistência, e aplaudindo o discurso de Seguro.
Nas redes sociais, Montenegro partilhou uma mensagem em que considerou que o Dia de Portugal deixou claro o objetivo de “esforço conjunto para que os portugueses – dentro e fora do território nacional – possam ter mais qualidade de vida, oportunidades iguais e o orgulho de ser parte de um todo que reúne Portugal“.
Reações políticas
O discurso mereceu reações positivas tanto do PSD como do PS, com ambos os partidos a destacar o apelo ao diálogo e ao compromisso com o interesse nacional.
O líder do partido Chega, assinalou a data com uma publicação na rede social X, onde aparece montado num cavalo branco com uma espada, numa imagem gerada por Inteligência Artificial (IA), com a frase “Deus, Pátria e Família”. Ventura decidiu imitar as publicações de Donald Trump que também tem recorrido a este tipo de imagens de IA para se auto-promover.



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