
A erva-das-pampas (Cortaderia selloana), é uma das piores espécies invasoras em Portugal continental, que continua a expandir-se de forma preocupante na região Norte, especialmente na costa, nos municípios de Vila Nova de Gaia, Espinho e um pouco por toda a região do Grande Porto.
A espécie coloniza as dunas costeiras, terrenos baldios, margens de vias de comunicação e áreas industriais. Esta planta herbácea, de grande porte, pode atingir 2,5 metros de altura, com plumas branco-prateadas que se elevam a mais de 4 metros, e é reconhecida pela sua capacidade de produção massiva de sementes. Uma única planta feminina pode gerar até um milhão de sementes, dispersas eficazmente pelo vento, ou ao ser arrancada, para locais distantes.
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A planta é muito apreciada para fins ornamentais ou decoração de jardins, mas a sua utilização é proibida e esconde um grave problema, muito difícil de resolver.
Popularmente conhecida como erva-das-pampas, a espécie é originária da América do Sul, nomeadamente das regiões das Pampas, na Argentina e no Chile. O seu nome científico (Cortaderia selloana), remete para o carácter cortante das suas folhas.
Em Portugal, a espécie foi introduzida propositadamente como planta ornamental, utilizada em jardins e quintais devido à beleza das suas vistosas plumas branco-prateadas, principalmente nas últimas décadas. Durante anos, a espécie permaneceu confinada a espaços ajardinados, sem constituir uma ameaça visível, mas nos últimos anos, tem proliferado nas áreas costeiras, competindo com a vegetação nativa e ocupando vastas áreas.
A espécie integra a Lista Nacional de Espécies Invasoras (anexo II do Decreto-Lei nº 92/2019, de 10 julho), com um nível de risco muito elevado (Nível de risco: 261).
Um problema que se agrava
A proliferação da erva-das-pampas na região norte, tem causas bem identificadas. Trata-se de uma espécie oportunista que se estabelece em áreas onde o solo foi perturbado (tal como as mimosas), onde a vegetação nativa foi eliminada ou alterada.
As zonas costeiras de Gaia e Espinho, com solos arenosos e boa drenagem, oferecem as condições ideais para o seu desenvolvimento. A espécie aproveita também a rede de infraestruturas – autoestradas, linhas ferroviárias, zonas industriais e parques empresariais – para se propagar, lançando anualmente um verdadeiro “bombardeamento contínuo de sementes” sobre o ambiente envolvente.
Impactos ambientais e não só…
Os impactes desta espécie invasora são bastante significativos a vários níveis. No plano ecológico, a erva-das-pampas forma aglomerados densos que dominam a vegetação herbácea e arbustiva, criando barreiras à circulação da fauna e utilizando os recursos disponíveis para outras espécies. As suas folhas, de margens aão extremamente cortantes, e podem limitar o uso recreativo e profissional das áreas invadidas, causando ferimentos em pessoas e animais.
Na saúde pública, a planta é responsável por um novo pico de alergias após o verão, com o seu pólen a agravar problemas respiratórios numa altura do ano em que habitualmente diminui a concentração de pólenes no ar.
Economicamente, os custos associados às medidas de controlo são muito elevados, recainindo sobre os municípios, proprietários privados e entidades gestoras de infraestruturas, que investem na sua erradicação.
Projetos em curso para erradicação
A situação é suficientemente grave para justificar uma resposta coordenada a nível europeu. Desde 2018 que a Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia integra o projeto LIFE Stop Cortaderia, uma iniciativa transnacional que envolve Portugal, Espanha e França ao longo de cinco anos, com um investimento de 3,5 milhões de euros, cofinanciado em 52% pela União Europeia.
Este projeto permitiu o desenvolvimento de uma Estratégia Transnacional de Luta contra a Cortaderia selloana que envolve 278 entidades, além de várias entidades públicas. A estratégia passa por eliminar primeiro as plantas isoladas para, progressivamente, abordar as grandes manchas.
O processo de eliminação da erva-das-pampas é muito difícil e complexo, e obriga a tratamento especializado, porque, se não for feito corretamente, pode agravar ainda mais o problema.
Atualmente, está também em curso o projeto LIFE COOP Cortaderia (2023-2028), sucessor do STOP Cortadeira, que visa alargar as ações de controlo e contenção da espécie, e que se deve prolongar até 2028. Com um orçamento total de cerca de 6,4 milhões de euros e apoio da União Europeia de 60%, o projeto tem como objetivo eliminar mil hectares de áreas invadidas, com especial foco na proteção das zonas costeiras da Rede Natura 2000 e corredores fluviais.
Para além do município de Vila Nova de Gaia, o consórcio conta com o Instituto Politécnico de Coimbra, diversas entidades espanholas e francesas, e organizações ambientais como a SEO/BirdLife.
Métodos de controlo e cuidados necessários
O controlo da erva-das-pampas exige planeamento e muita persistência. As metodologias variam conforme a dimensão das plantas e a área invadida, privilegiando-se sempre, quando possível, os métodos não químicos. O arranque manual é a opção preferencial para plântulas e plantas jovens, especialmente em solos arenosos, devendo ser realizado com equipamento de proteção individual dado o caráter cortante das folhas. Para plantas maiores, é preferível recorrer ao arranque mecânico.
O corte das panículas (plumas) deve ser feito antes da dispersão das sementes (que ocorre geralmente no final de agosto ou início de setembro). As plumas cortadas devem ser colocadas em sacos duplos e destruídas ou submetidas a compostagem a altas temperaturas (acima de 50°C).
O projeto disponibiliza um mapa onde são registados os locais onde são feitas as intervenções.
Uma descoberta recente, e promissora para o controlo biológico é a presença em Portugal e Espanha, é a capacidade do inseto Spanolepis selloanae, destruir os ovários das flores femininas através das suas larvas, podendo ajudar a reduzir a dispersão da planta. Este potencial agente de controlo biológico está a ser estudado em Espanha para ampliar a sua distribuição nas zonas invadidas pela erva-das-pampas.
Cuidados a ter pela população
Os cidadãos devem evitar plantar ou arrancar plumas da erva-das-pampas (especialmente no fim do verão), cuja utilização como ornamental é proibida por lei em Portugal. Segundo a legislação, quem detiver exemplares em propriedade privada é obrigado a proceder à sua erradicação.
Ao circular nas áreas afetadas, recomenda-se cautela para evitar cortes com as folhas e, durante o período de floração (agosto a outubro), pessoas com alergias devem redobrar os cuidados. A população pode contribuir para o mapeamento da espécie através da plataforma BioDiversity4All/iNaturalist, submetendo registos de localização, sempre que observar a planta.
- Valor obtido de acordo com um protocolo adaptado do Australian Weed Risk Assessment (Pheloung et al. 1999), por Morais et al. (2017), segundo o qual valores acima de 13 significam que a espécie tem risco de ter comportamento invasor no território Português | Actualizado em 30/09/2017. ↩︎



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