
A humilde Mesquita Hazrat Hamza, está instalada há mais de vinte anos no 19A da Travessa do Loureiro, no Porto. Uma viela discreta na Rua do Loureiro (que liga a Estação de S. Bento à rua Cimo de Vila) onde uma velha porta azul serve de entrada para centenas de fiéis da comunidade muçulmana da Invicta.
O velho edifício foi adquirido pela Livraria Lello a 10 de fevereiro do ano passado, e a Lello não pretende renovar o contrato de arrendamento com a associação muçulmana. Desta forma, a Mesquita – tal como muitos habitantes da cidade nos últimos anos – corre o risco de ser despejada. O edifício tem que ser desocupado até ao próximo dia 31 de outubro para dar lugar a um “projeto de circuito criativo”, vocacionado para o turismo e desenhado pelo arquiteto Siza Vieira.
A comunidade muçulmana no Porto é relativamente expressiva, e estima-se que ronde as 7.000 pessoas. A Mesquita, que é gerida pela Comunidade do Bangladesh do Porto, reúne centenas de fiéis diariamente e chega a juntar cerca de 1.500 pessoas às sextas-feiras, que agora vêem ameaçado o seu local de culto, depois de goradas as promessas feitas pela Câmara Municipal.
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Um edifício comprado e uma promessa por cumprir
O imóvel foi adquirido pela empresa Lello Vitória – Livros e Turismo, Lda, empresa, que detém a famosa livraria na Rua das Carmelitas e que tem vindo a adquirir vários imóveis na zona central da cidade para a criação de “circuitos criativos”, que serão mais um atrativo para entreter os milhares de turistas que chegam diariamente ao Porto.
A compra do edifício onde funciona a mesquita aconteceu na sequência de uma promessa do anterior presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, que garantiu à comunidade muçulmana a cedência de um espaço alternativo para realizar o culto. A ideia passava por atribuir à associação o direito de superfície de um edifício devoluto na Rua da Porta do Sol, propriedade da autarquia, com a condição da realização de obras de reabilitação suportadas pela comunidade e estimadas em 600 mil euros.
No final do mandato de Rui Moreira, a proposta acabou por ser retirada da votação em Reunião de Câmara. Na altura, o autarca justificou a atitude porque, segundo ele, não seria “recomendável” avançar com “iniciativas que não são consensuais” para evitar tensões na cidade.
Ou seja, a comunidade muçulmana da cidade do Porto foi abandonada pela autarquia e sem qualquer solução para garantir condições para a realização do culto.
“Não é prioridade” diz Pedro Duarte
Com a mudança de executivo, nas autárquicas de outubro, a esperança da comunidade esfumou-se. O atual presidente da Câmara, Pedro Duarte (PSD/CDS/IL), manifestou publicamente que “a construção de mesquitas na cidade do Porto não é uma prioridade”. O autarca anunciou a intenção de alienar os imóveis devolutos da autarquia (incluindo o que estava prometido à comunidade muçulmana) em hasta pública, dando a “igual possibilidade” às associações religiosas de concorrerem para os adquirir.
A posição contraria a promessa eleitoral e de mandato de Rui Moreira, que previa a cedência do espaço por 40 anos mediante uma renda simbólica de 50 euros.
Garantias desfeitas e futuro incerto
A Comunidade do Bangladesh do Porto, que gere a mesquita Hazrat Hamza, sente-se “apanhada desprevenida” e o presidente da associação, Alam Kazol, referiu esta semana à agência LUSA que chegaram a negociar a compra do edifício da Travessa do Loureiro diretamente com o antigo proprietário, mas foram aconselhados por Rui Moreira a aguardar pela solução da Câmara.
Agora, não só não adquiriram o espaço como não vão poder investir num espaço cedido pela Câmara.
Já a Livraria Lello, contactada pela Lusa, recusou comentar a situação do arrendamento, focando-se na divulgação do evento “Babell, Cidade-Livro”, agendado para junho, e no projeto de expansão física da livraria, afirmando estar numa fase particularmente exigente.
Com o despejo iminente, a comunidade muçulmana teme ter de voltar a rezar em pequenos estabelecimentos ou nos próprios carros, como acontecia no início da sua fixação na cidade, antes da abertura da mesquita em 2003.




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