Terrenos agrícolas expropriados em Baguim do Monte para central de resíduos de 70 milhões

Oito parcelas de terreno agrícola foram expropriadas pela Câmara de Gondomar para a construção de uma Central de Valorização de Bioresíduos da Lipor em Baguim do Monte.

A Câmara de Gondomar avançou com a expropriação forçada de oito parcelas de solo rural para viabilizar a construção da Central de Valorização de Biorresíduos da Lipor. O projeto irá produzir biometano a partir de resíduos. O projeto esteve em consulta pública até ao passado mês de março.

LIPOR Baguim do Monte
Instalações da Lipor em Baguim do Monte, na fronteira com Ermesinde. (foto: Lipor)

Oito parcelas de terreno agrícola e rural na fronteira entre Baguim do Monte e Ermesinde vão ser expropriadas com caráter de urgência. A Câmara Municipal de Gondomar publicou o edital que formaliza o processo: 41.400 metros quadrados de solo, avaliados em 823 mil euros, para dar lugar à nova Central de Valorização de Biorresíduos da Lipor — um projeto de 70 milhões de euros que promete transformar restos de comida e resíduos verdes em biometano.

As expropriações abrangem um proprietário e seis casais, além de outro proprietário não identificado. Segundo o Edital de 10 de fevereiro, a autarquia informa os proprietários da intenção de “expropriar e requer a utilizada pública e autorização de posse administrativa com caráter de urgência das parcelas necessárias à construção da Central de Valorização de Biorresíduos da Lipor, em Baguim do Monte”.

As indeminizações aos proprietários variam entre os 24.750 euros (1.250 m2) e os 105.904 euros (5.282 m2)

A Lipor já possui um complexo naquele local, na Rua da Morena, em Baguim do Monte, onde é atualmente realizado o processo de compostagem em túnel, que produz cerca de 13 mil toneladas/ano de corretivo orgânico de alta qualidade, o NUTRIMAIS.

Com a construção deste novo equipamento, a Lipor prevê tratar cerca de 65 mil toneladas de resíduos alimentares, que equivalem a 72 camiões com restos de comida por dia, além de 10 mil toneladas de resíduos verdes por ano, que serão convertidos em biometano, para injetar na rede de gás natural, a partir do biogás resultante da degradação da matéria orgânica por microrganismos.

A tecnologia que será utilizada é a digestão anaeróbia por via húmida, complementada pela compostagem, que já é efetuada no local, processando resíduos recolhidos nos oito municípios abrangidos pela Lipor: Porto, Gondomar, Maia, Matosinhos, Valongo, Espinho, Póvoa de Varzim e Vila do Conde.

O Estudo de Impacte Ambiental (EIA), promovido pela CCDR Norte esteve em consulta pública até ao passado mês de março, e concluíu que o projeto está “alinhado com os objetivos nacionais e europeus” de gestão de resíduos e economia circular, estimando-se a criação de 33 novos postos de trabalho. As entidades contam arrancar com as obras já no próximo ano, e ter a central totalmente concluída em 2030.

Central de Valorização de Biorresíduos da Lipor Baguim do Monte
Local de construção da futura Central de Valorização de Biorresíduos da Lipor, em Baguim do Monte (foto: Estudo de Impacte Ambiental da CVB da Lipor – Elementos adicionais)

As promessas para a zona envolvente

No âmbito de um protocolo entre a Lipor e a Câmara de Gondomar, estão previstas obras de compensação para a freguesia de Baguim do Monte. A mais significativa é a reabilitação do Ribeiro do Caneiro, que passará a correr a céu aberto – atualmente está entubado – com a plantação de vegetação ripícola nas margens, o que, segundo os promotores, ajudará na prevenção de cheias e na promoção da biodiversidade local.

Está também prevista a reabilitação da Rua da Morena e a construção de uma nova rotunda para gerir o tráfego de muitos veículos pesados que vão transportar os resíduos para a central. A estimativa é de 72 camiões de recolha por dia a entrar e sair das instalações.

As preocupações

Além das expropriações forçadas, a concentração num único ponto (Baguim do Monte) de todos os resíduos recolhidos em oito municípios de uma zona densamente povoada, coloca preocupações com os impactos ambientais, do tráfego naquela área e eventuais questões de segurança e saúde pública.

Baguim do Monte já alberga o maior complexo de gestão de resíduos do Grande Porto. A nova central não é uma instalação isolada, mas sim, uma ampliação significativa de uma infraestrutura que já existe há algumas décadas naquele território.

Apesar de ser uma localização lógica do ponto de vista operacional – porque aproveita infraestrutura já existente e reduz custos – é legítimo questionar os impactos desta concentração de 65 mil toneladas de resíduos alimentares e 10 toneladas de resíduos verdes num único ponto.

Durante o processo de consulta pública a Associação ZERO refere que “trata-se, em princípio, de uma opção ambientalmente, positiva, por reduzir emissões de metano associadas à deposição em aterro, por permitir substituír gás fóssil e por reduzir a incinireção de resíduos recicláveis”.

No entanto, a associação ambientalista assinala dúvidas e preocupações na incineração e libertação de capacidade, porque a alteração de fluxos tem um efeito sistemático: “liberta capacidade de incineração que poderá ser ocupada por resíduos urbanos de sistemas de gestão de resíduos vizinhos“. A ONGA pede que esta questão seja salvaguardada e que a construção da central contribua de forma significativa para a redução da incineração, processo extremamente nocivo para o ambiente.

O 41N já enviou um conjunto de questões para a Câmara Municipal e Lipor sobre este processo.

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Os terrenos agrícolas expropriados para a construção da Central de Valorização de Biorresíduos da LIPOR em Baguim do Monte.

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