O império imobiliário da Livraria Lello construído sobre um falso mito que vingou

Ainda há quem se lembre de passar à porta da livraria Lello e a ver vazia de gente. Em pouco tempo, o que era uma livraria quase esquecida, tornou-se num dos principais pontos turísticos da cidade e hoje tem um património que ultrapassa os limites do Porto.

Fotos: 41N
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Filas à porta da Livraria Lello no Porto (foto: 41N)

A livraria Lello foi fundada a 13 janeiro de 1906, no Porto, pelos irmãos José e António Lello no atual edifício da Rua das Carmelitas. O que começou como uma loja de livros, subitamente se transformou num destino turístico com um património assinalável, quando em 2015 a família Pedro Pinto (proprietária do Grupo Lionesa) adquiriu 51% do capital da livraria, que até essa data estava na posse de familiares diretos dos fundadores.

No ano seguinte, em 2016, durante o lançamento mundial do livro “Harry Potter and the Cursed Child“, a Livraria Lello organizou um grande evento, abrindo as portas à meia noite de 30 julho, de forma gratuita, para que os fãs pudessem adquirir a edição em inglês em primeira mão. Na véspera do evento, circularam rumores que atores do novo filme da saga “Harry Potter” – ou a prória J.K. Rowling – iam estar presentes no Porto. Os rumores tiveram até eco em alguma comunicação social, gerando uma enorme expetativa nos fãs.

No entanto, nada aconteceu, a não ser o lançamento do livro. Nessa noite algumas centenas de pessoas concentraram-se em frente à livraria, mas nem sinal dos atores ou da escritora. Da desilusão nascia o mito, e a partir daí a livraria passou a ser conhecida como a “livraria do Harry Potter”, mesmo não tendo qualquer relação com a história. Mito que ainda hoje vive.

Em 2023 a Lello passou a ser totalmente detida pela família Pedro Pinto, terminando uma longa história de 142 anos de ligação da livraria aos seus fundadores. Nessa altura já o “mito de Harry Potter” se tinha espalhado entre os turistas dos quatro cantos do mundo, mudando radicalmente o destino deste espaço na baixa do Porto, que pouco tempo antes, passava quase despercebido aos transeuntes, apesar da beleza escondida no seu interior.

A 21 de maio de 2020, a autora de Harry Potter reagiu finalmente às alegações que colocavam a Lello como fonte de inspiração. J. K. Rowling escreveu no Twitter que, quando viveu na cidade do Porto, nunca visitou a Livraria Lello, nem sequer sabia da sua existência, desmentindo qualquer relação entre a arquitetura da livraria e qualquer tipo de inspiração para a famosa saga de Harry Potter.

“Por exemplo, eu nunca visitei esta livraria no Porto. Nem sequer sabia da sua existência! É linda e gostava de a ter visitado, mas não tem nada a ver com Hogwarts!” – J.K. Rowling (Joanne Rowling), 21 de maio de 2020.

A escritora, no mesmo tweet, ironizava que estava a pensar criar um espaço no seu website com todos os lugares que, supostamente, serviram de inspiração para a criação de Harry Potter, dando outro exemplo de um café em Edimburgo (The Elephant House) que também é falsamente associado a Harry Potter.

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O tweet original de J.K. Rowling desmentindo qualquer tipo de inspiração na livraria Lello.

A livraria, que é atualmente gerida pelo Grupo Lionesa, e visitada por cerca de 3.500 pessoas, por dia, de mais de 200 países diferentes, começou, no ano de 2015, a cobrar entradas aos visitantes para tentar conter o fluxo de turistas que invadiam aquele pequeno espaço.

Graças a esta decisão, a livraria Lello tem hoje uma faturação estimada em 12,8 milhões de euros anuais (mais de 1 milhão por mês) e vende cerca de 1 milhão de livros todos os anos. São cerca de 35 mil euros por dia, só com a venda de entradas.

Atualmente uma entrada na Lello custa 12 euros, sendo o valor dedutível na compra de um livro. O mesmo valor é cobrado aos habitantes do Porto, que têm acesso prioritário nas filas, se forem titulares do Cartão Porto.

Existe ainda um voucher combinado que inclui visita à livraria e uma visita à Fundação Livraria Lello, que está localizada no Mosteiro de Leça do Balio, também ele propriedade da Lionesa. A empresa construíu um espaço anexo ao mosteiro projetado pelo arquiteto vencedor do Prêmio Pritzker, Álvaro Siza Vieira. A obra, que incluíu o restauro do mosteiro, teve um investimento estimado, na primeira fase, de cerca de 2 milhões de euros.

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Mosteiro de Leça do Balio. (foto: Wikimedia Commons Author: Manuel de Sousa)

Com o sucesso estrondoso do fenómeno Lello, e ajuda da saga Harry Potter, os proprietários investiram fortemente no mercado imobiliário, adquirindo, desde logo, o edifício contíguo à livraria na Rua das Carmelitas. O espaço, atualmente em obras, vai albergar um auditório, um elevador que vai ligar os dois edifícios, novas casas de banho e a zona de bilheteira. A intervenção é, mais uma vez, da responsabilidade de Siza Vieira. A obra deverá estar concluída ainda este ano.

A família Pedro Pinto, detém ainda o Teatro Sá da Bandeira, e tem atualmente em curso um ambicioso projeto de expansão do Lionesa Business Hub, em Matosinhos, onde trabalham mais de sete mil pessoas de 47 nacionalidades, num investimento de cerca de 60 milhões de euros.

O portefólio da família, nas áreas de retalho, turismo, cultura e escritórios, não se fica por aqui. Poucos metros abaixo da livraria está a nascer a nova sede da Lello, na Rua das Galeria de Paris. O edifício histórico foi comprado por 2,6 milhões de euros e no piso térreo está prevista a criação de um “espaço cultural”, para acolher concertos, exposições e peças de teatro. No último andar do edifício vão nascer “três grandes trapeiras para a rua e um belvedere“, uma espécie de miradouro com vista para cidade.

A recuperação do edifício está a cargo de Nuno Valentim, arquiteto responsável pela reabilitação do Mercado do Bolhão.

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Edifício onde vai ser instalada a sede da Livraria Lello na Rua das Galerias de Paris, no Porto. (foto: 41N)

Do outro lado da cidade, ao lado da estação de S. Bento, a família Pedro Pinto tem mais investimentos. Ao longo dos últimos anos, foram adquiridos oito edifícios na zona da Rua do Loureiro, entre eles, um edifíco degradado na Travessa do Loureiro, onde funciona uma mesquita há mais de duas décadas, da comunidade do Bangladesh no Porto, que agora corre o risco de ser despejada.

A intenção é criar naquela zona um “circuito criativo” com um invesimento previsto de 30 milhões de euros, mais uma vez, com desenho de Siza Vieira. O projeto deve transformar completamente aquela rua, atualmente ocupada por pequenos comércios, muitos deles, de imigrantes.

Outro grande investimento é o serviço de shuttle gratuito associado à Linha de Leixões, que desde o dia 9 de fevereiro, voltou a ser utilizada para o transporte de passageiros. O Lionesa Business Hub disponibiliza o shuttle gratuito aos funcionários, entre a Estação de Leça do Balio e os edifícios do complexo empresarial, um serviço que está coordenado com os horários dos comboios e as horas de ponta laborais.

A reativação da Linha de Leixões, que era usada apenas para transporte de mercadorias, resultou de uma colaboração com Câmara de Matosinhos, e no plano financeiro representou um investimento de cerca de três milhões de euros para viabilizar as obras, repartidos entre a autarquia de Matosinhos, a CP e a IP (Infraestruturas de Portugal).

Com estes investimentos, a Lello quer afirmar-se como um verdadeiro polo cultural e imobiliário na Invicta, especialmente vocacionado para o turismo. O que era uma livraria quase esquecida no centro da cidade, em poucos anos, tornou-se um verdadeiro império que ultrapassa os limites da própria cidade e promete continuar a expandir-se, alimentado pelo turismo massivo que, nos últimos anos, transformou totalmente a face da invicta.

Cronologia histórica da Lello:

1881

Estreia dos irmãos Lello: José Pinto de Sousa Lello abre a sua primeira livraria na Rua do Almada, iniciando a atividade da família no setor Milestones – Livraria Lello. Pouco depois, junta-se ao negócio o seu irmão, António Lello Livraria Lello.

1885

Transição para Mathieux Lugan: Com a morte precoce de Ernesto Chardron aos 45 anos, a Livraria Chardron é vendida ao francês Mathieux Lugan.

1894

Aquisição pelos irmãos Lello: José Lello compra a Livraria Chardron e todo o seu valioso espólio editorial a Mathieux Lugan. É criada a firma José Pinto de Sousa Lello & Irmão.

1898

Entrada de novos sócios: A empresa altera a sua designação comercial para Lello & Irmão, integrando temporariamente o sócio Lemos e fundindo-se com a tipografia da Livraria Lemos & Cª.

1906

Inauguração do edifício atual: Sob a liderança direta dos irmãos José e António Lello, é inaugurado o emblemático edifício neogótico na Rua das Carmelitas, com o nome oficial de Livraria Chardron de Lello & Irmão.

1919

Mudança oficial de nome: O estabelecimento deixa cair em definitivo o nome de Chardron, passando a intitular-se simplesmente Livraria Lello & Irmão, mantendo-se estritamente na posse e gestão direta dos herdeiros da família Lello.

2015

Entrada da família Pedro Pinto: O capital da livraria sofre uma forte reestruturação. A holding da família Pedro Pinto (proprietária do Grupo Lionesa) adquire 51% do capital social, dando início a uma fase de modernização e foco no turismo literário.

2023

Controlo total próprio: A família de Pedro Pinto, liderada operacionalmente pela sua esposa, Aurora Pedro Pinto, assume o controlo total da empresa, encerrando em definitivo os 142 anos de ligação direta da família de sangue dos fundadores Lello à gestão da casa.

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