Documentos divulgados pelo Fumaça (fumaca.pt) comprovam que a empresa Savannah Lithium (subsidiária da inglesa Savannah Resources), que pretende explorar as minas de lítio nas aldeias de Covas do Barroso e Romaínho (em Boticas), contratou os serviços da GNR para realizar ações de segurança num valor superior a 800 euros, durante o ano passado.

Os proprietários de terrenos e moradores da região afetada pelas minas do Barroso, não se conformam com a fatura a pagar pela exploração mineira nem com a forma como dizem ser tratados pelo Governo e pela multinacional inglesa. Agora junta-se o descontentamento com a posição da Guarda Nacional Republicana (GNR) que parece estar do lado da empresa mineira.
Os moradores da região sentem-se, por isso, cada vez mais isolados e uniram-se para contestar as Minas do Barroso, criando a associação UDCV – Unidos em Defesa de Covas do Barroso, através da qual recorreram ao Tribunal Geral da União Europeia com o apoio da organização ClientEarth, uma ONG internacional, sem fins lucrativos, focada na defesa do ambiente através da legislação.
Também vais gostar de ler:
Segundo a investigação divulgada pelo Fumaça, e assinada pelo jornalista Ricardo Esteves Ribeiro, a Savannah entrou nas aldeias com uma atitude amigável, nos primeiros tempos, mas rapidamente começou a ameaçar as populações com a expropriação de terrenos.
Em finais de 2024, o Estado português estabeleceu um acordo com a Savannah Lithium para aprovar uma servidão administrativa para a realização de trabalhos de sondagens nos terrenos no âmbito do contrato de concessão da Mina do Barroso que prevê a exploração de quartzo, feldspato e lítio.
O Despacho n.º 5823/2026, de 6 de maio, determina a constituição da servidão administrativa sobre parcelas de terreno destinadas à exploração de recursos minerais no concelho de Boticas.
Segundo o Fumaça, o Governo nunca falou com as populações, deixando-as entregues nas mãos da multinacional inglesa, que entrou pelos terrenos sem comunicar absolutamente nada aos proprietários. Alertada a GNR de Boticas, respondeu que “Nós não os podemos pôr cá fora” chegando a ameaçar os donos dos terrenos para abandonar a sua propriedade, caso contrário, seriam detidos.
A proteção da GNR à empresa Savannah foi confirmada por comunicado da associação UDCB – Unidos em Defesa de Covas do Barroso, que referia que a GNR sempre se recusou a ouvir os proprietários e que a “GNR continua a vir ao terreno apenas para defender os interesses da empresa Savannah”.
A oficial de Relações Públicas do Comando Territorial de Vila Real da GNR, Andreia Miranda, confirmou ao Fumaça a existência de conflitos com os proprietários, mas afirma que a Guarda defendeu o cumprimento daquilo que está estabelecido na servidão administrativa, decretada pelo Governo.
“A GNR está feita com eles”
Os documentos divulgados pelo Fumaça, comprovam que a GNR de Boticas foi contratada pela empresa Savannah Lithium para proteger o projeto de extração de lítio no Barroso. Apesar desta situação estar prevista na Lei Orgânica da GNR (Lei nº 63/2007) e regulada pela Portaria nº 298/2016 de 29 de novembro, e ser legal, não deixou de causar incómodo e revolta das populações que já se sentiam abandonadas e desprotegidas na salvaguarda daquilo que são os seus interesses como proprietários dos terrenos e pelos impactos do projeto na sua qualidade de vida e modos de vida comunitários.
Num destes documentos, é possível confirmar que a GNR prestou serviço remunerado em 2022, e mais recentemente em 2025, esta última no seguimento de vários “atos de sabotagem/danos às instalações e equipamentos da referida empresa”.
Os serviços prestados pelos militares da GNR à Savannah aconteceram nos dias 18 e 19 de janeiro de 2025, um mês depois da primeira servidão administrativa, com um custo de 835,61€ pagos pela Savannah Lithium, correspondentes a 44 horas de serviço.
Já este ano, o Despacho n.º 5823/2026, de 6 de maio, determinou a constituição de nova servidão administrativa sobre parcelas de terreno necessárias à exploração de recursos minerais na concessão denominada “Mina do Barroso”. O Despacho foi assinado pelo Secretário de Estado Adjunto e da Energia, Jean Paulo Gil Barroca.
O projeto das Minas do Barroso foi aprovado pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA) em 2023, com parcer “condicionado”, depois de ter sido chumbado em 2022 quando foi sujeito a avaliação da APA pela primeira vez.




Comentários