Segundo uma notícia publicada no Jornal Público, o principal arguido do caso de tortura na Esquadra do Rato, em Lisboa, é um jovem de 22 anos, agente da PSP, que mantinha um perfil nas redes sociais onde propagava ativamente a xenofobia, o discurso de ódio contra a comunidade LGBTQI+ e o apoio a grupos neonazis e a partidos de extrema-direita, nomeadamente o partido Chega.
Guilherme Leme está acusado de 29 crimes, incluindo tortura, violação consumada e abuso de poder sobre pessoas detidas, maioritariamente estrangeiros ou em situação de vulnerabilidade. De acordo com o Ministério Público, as agressões na esquadra não ficavam pelo plano físico. Numa troca de mensagens num grupo do WhatsApp intitulado “Grupo sem Gordos”, Leme e outros seis agentes da polícia, partilhavam imagens de vítimas agredidas. Num dos comentários, sobre uma fotografia de um imigrante cabo-verdiano a quem tinham sido cortadas as rastas, foi escrito: “Vai andar na rua de cabeça baixa”.
Este caso parece não ser um caso isolado, mas um sintoma de uma realidade mais ampla em Portugal. O movimento Zero, que surgiu como um movimento anónimo dentro das forças de segurança, tem sido apontado como um grupo com fortes ligações à extrema direita e ao Chega, incluindo após a sua formalização em 2021. O Observatório de Segurança chegou a classificá-o como preocupante e potencialmente perigoso.
A escalada da violência da extrema-direita em números
A ascenção da extrema direita coincide com um aumento exponencial dos crimes de ódio em Portugal. De 2015 a 2025, os registos de crimes de ódio aumentaram 2236%. Em 2015, registaram-se 19 ocorrências e em 2025, os números dispararam para 449.
No mesmo periodo, a Polícia Judiciária identificou 25 incidentes de violência classificados como motivados por ideologia extremista, com cerca de 40 vítimas e 28 processos judiciais em curso. Os alvos incluem minorias étnicas, pessoas LGBTQI+, artistas e migrantes.
Em junho de 2025, a PJ desmantelou o grupo neonazi chamado “Movimento Armilar Lusitano”, que planeava um ataque ao Parlamento. Foram detidas seis pessoas, incluindo um agente da PSP e um ex-assessor do Chega, e apreendidas armas impressas em 3D bem como explosivos.
As autoridades reconhecem um “agravamento da ameaça” da extrema-direita, com os setores nacionalistas e neonazis a retomarem a sua atividade, que ficou caraterizada por episódios de grande violência nos anos 90.
A própria Europol, numa ação que envolveu oito países, entre os quais Portugal, identificou milhares de ligações online para conteúdos de ódio, e estratégias de recrutamento de jovens para grupos racistas. Ao todo foram identificados 1.070 links online para conteúdo violento de extrema-direita e terrorista e 105 ligações para conteúdo racista e xenófobo.
Numa megaoperação da PJ em janeiro deste ano, que visou desmantelar uma organização criminosa de extrema-direita, foram detidas 37 pessoas, entre as quais, pelo menos três militantes do Chega, alguns dos quais, já se tinham candidatado por aquele partido.
As autoridades debatem-se cada vez mais como combater uma ameaça que se alimenta nas sombras do mundo digital, baseada na desinformação e no medo e que já mostrou ser capaz de seduzir os jovens, especialmente os mais descontentes com a atualidade e preocupados com o futuro.