Os bots estão a comprar centenas de ingressos em frações de segundo colocando sérios problemas á indústria do turismo. O fenómeno já chegou a Portugal.

Os bots são programas de software automatizados que estão a ser utilizados para comprar centenas de ingressos, em frações de segundo, muito mais rápido do que qualquer ser humano seria capaz. A tecnologia está a ser utilizada em vários cenários, incluindo a compra de bilhetes para visitar o Coliseu de Roma e já chegou ao nosso país.
A visita ao grande símbolo do Império Romano, o Coliseu de Roma, transformou-se num autêntico pesadelo burocrático e digital, numa altura em que Itália se prepara para receber milhões de visitantes para o Jubileu da Igreja Católica, já este ano.
O que devia ser um simples clique transformou-se num campo de batalha digital devido ao “uso massivo de ‘bots‘ e sofisticadas técnicas de bloqueio por parte de agências não autorizadas”, para reservar bilhetes, conforme relata a agência de notícias EFE.
A tecnologia, que poderia facilitar o acesso à cultura, acabou por se tornar numa ferramenta para a especulação, numa verdadeira batalha digital que tem o Coliseu como cenário de fundo.
A armadilha do bilhete “esgotado”
O funcionamento deste esquema é minucioso. Nos bastidores do site oficial dos monumentos, quando os bilhetes são disponibilizados ao público, entram em ação os bots. Uma das técnicas usadas é a do carrinho de compras: Esta técnica, conhecida como “freezing”, permite que os operadores turísticos bloqueiem os bilhetes no carrinho de compras sem os pagar imediatamente, podendo mantê-los “reservados” durante dias. Só quando encontram um cliente final é que associam o nome à compra e finalizam a transação, retirando os ingressos do mercado oficial durante longos períodos.
Na prática, o visitante comum vê a disponibilidade esgotar num piscar de olhos. Literalmente, em 1 ou 2 segundos, os operadores turísticos ocupam todas as entradas para a arena e para os subterrâneos. “É impossível clicar a tempo de aceder”, lê-se num dos muitos comentários de turistas indignados na publicação no Instagram da agência EFE que denuncia o esquema.
A revolta de turistas e guias
A indignação é geral. “Quando nos apercebemos que tínhamos de procurar os bilhetes com antecedência, já não havia tempo”, desabafou Sandra, uma turista da Venezuela, em declarações à agência EFE.
Como consequência deste fenómeno, as redes sociais e os fóruns especializados enchem-se de relatos de famílias que se veem forçadas a pagar valores muito acima do preço para não ficarem apenas a ver o exterior do monumento.
A Associação Nacional de Guias Turísticos credenciados (AGTA) tem sido a voz mais crítica em relação a este ataque dos bots. A taxa de desistência de visitas em 2026 é uma preocupação real para os profissionais, que sentem na pele o desgaste de explicar aos clientes a impossibilidade de aceder ao monumento.
As medidas para tentar travar a especulação
As autoridades italianas estão a apertar o cerco contra a venda ilegal. A Autoridade da Concorrência e do Mercado Italiana (AGCM) já aplicou coimas num total de cerca de 20 milhões de euros à antiga empresa de gestão de bilheteira, a CoopCulture, e a várias plataformas internacionais online, incluindo a GetYourGuide, Tiqets e City Wonders.
O Parque Arqueológico do Coliseu também está a tomar medidas drásticas. Desde 4 de maio de 2026, que os bilhetes físicos do Coliseu, Fórum Romano e Monte Palatino são vendidos exclusivamente nas bilheteiras oficiais.
Mas o caso do Coliseu não é isolado: outros grandes monumentos europeus enfrentam o mesmo problema. A Torre Eiffel, em Paris, também vê os seus bilhetes standard esgotados por bots em poucos segundos, e em Espanha surgem relatos semelhantes, com o Palácio Real de Madrid e a Alhambra de Granada a serem alvo de práticas idênticas de especulação.
Na prática, praticamente todos os monumentos mais visitados na Europa, estão a ser alvo deste ataque de bots.
Fenomeno já chegou a Portugal
Em Portugal o fenómeno parece também já estar a criar problemas. Recentemente, e conforme foi noticiado pelo 41N, a Direção da Romaria d’Agonia em Viana do Castelo decidiu suspender temporariamente as inscrições online para o Desfile da Mordomia devido a uma avalanche de acessos suspeitos ao sistema. Foram registadas 7.612 tentativas de inscrição a partir de apenas 447 endereços IP diferentes, o que levou a organização a suspeitar de utilização abusiva da plataforma com recurso a sistemas automatizados.
Em outubro de 2025, a polícia do Porto desmantelou uma rede ilegal que usava bots para comprar e revender entradas para jogos no Estádio do Dragão, gerando receitas milionárias à custa dos adeptos, especialmente dos estrangeiros.
O fenómeno não é novo e já em 2022, a venda de bilhetes para a digressão “The Eras Tour” de Taylor Swift levou ao colapso do sistema de venda de ingressos da Ticketmaster. A empresa atribuiu o problema a um ataque massivo de bots, afirmando ter recebido três vezes a quantidade de tráfego de bots que normalmente recebem.
Mais recentemente, em fevereiro de 2025, a Ticketmaster voltou a cancelar bilhetes identificados como tendo sido comprados por bots para a digressão dos Oasis, reforçando a sua política de devolução do dinheiro aos compradores que violem os seus termos e condições.
Medidas para travar os bots
Vários países estão a adotar leis para regular o fenómeno do scalping digital. O governo do Reino Unido, por exemplo, aprovou em novembro de 2025 uma proibição da revenda de ingressos acima do preço original para estancar a exploração de preços nas plataformas online.
Nos EUA, a BOTS Act, de 2016, já prevê a proibição do uso de programas automatizados para comprar bilhetes em massa com o intuito de os revender.
As plataformas de venda também estão a reforçar as suas defesas, implementando sistemas de “fila virtual” (queues), desafios CAPTCHA mais complexos e ferramentas de deteção de comportamento de bots para identificar e bloquear tráfego suspeito. O sistema “Verified Fan” da Ticketmaster, por exemplo, foi desenhado para tentar garantir que os bilhetes chegam a fãs reais e não a operadores automáticos.
Em Portugal ainda não existe legislação específica para conter este fenómeno.