A deputada Cristina Rodrigues, do grupo parlamentar do Chega, defendeu hoje na Assembleia da República a Lei de Retorno de Imigrantes. A mesma deputada que há apenas dois anos defendia os direitos humanos e os direitos dos imigrantes no Parlamento.

cristina rodrigues chega
Cristina Rodrigues, deputada do Chega.

Em setembro do ano passado, quando a Lei dos Estrangeiros foi aprovada no parlamento, o Chega defendeu que os imigrantes deviam ser obrigados a descontar cinco anos para a Segurança Social antes de poderem ter acesso a apoios sociais. Cristina Rodrigues deixou claro que “o texto aprovado hoje parece suficiente, mas temos de ir mais longe” e criticou o Presidente da República por ter enviado a Lei para o Tribunal Constitucional, acusando-o de não “saber respeitar a decisão de os portugueses”.

O diploma mereceu o chumbo do Tribunal Constitucional, mas ainda assim, a nova versão foi aprovada no Parlamento com os votos a favor de PSD, CDS, Chega e IL. O PS votou contra.

A 4 de maio, Crisina Rodrigues partilhou um vídeo nas redes sociais onde referia “Graças ao Chega a atribuição da nacionalidade vai deixar de ser a bandalheira que era. Queríamos ter ido mais longe? Sim! Mas já demos um grande passo!”. A deputada congratulava-se com a promulgação da Lei da Nacionalidade pelo Presidente da República, contrariando tudo aquilo que defendia antes de ingressar no partido Chega.

Já no debate de hoje, 15 de maio, sobre a Lei do retorno de Imigrantes, que prevê, entre outras coisas, que seja alargado de 60 para 180 dias o período de detenção em Centros de Instalação Temporária (CIT) e permite a expulsão do país de crianças menores de idade, Cristina Rodrigues defendeu estas medidas e teceu críticas em relação ao funcionamento do sistema de acolhimento de imigrantes.

A defensora dos direitos dos imigrantes

Mas se em 2026 Cristina Rodrigues defende a limitação dos direitos, e até, a expulsão de imigrantes do país (incluindo crianças), em 2024 defendia exatamente o contrário. No Parlamento a deputada foi uma voz ativa na defesa dos direitos humanos, em particular, dos refugiados e imigrantes.

Em 2020, como deputada independente, chegou a apresentar o Projeto de Lei n.º 546/XIV/2.ª, que visava reforçar os direitos de estrangeiros e apátridas detidos em centros de instalação temporária em Portugal e propunha alterações ao regime de acolhimento e garantias fundamentais, como o acesso a um advogado, o direito a fazer telefonemas para casa, acesso ao próprio telemóvel e o direito a ser acompanhados, nas entrevistas pelas autoridades competentes portuguesas, por associações de defesa dos imigrantes.

O percurso de Cristina Rodrigues

A deputada Cristina Rodrigues entrou no parlamento em 2015, eleita nas listas do partido PAN pelo círculo de Setúbal. Na altura já era assessora do partido na Assembleia da República, e já tinha sido alvo de polémica durante a campanha eleitoral, ao surgir num vídeo do Podcast Conversa onde admitiu não conhecer o programa eleitoral do partido pelo qual estava a concorrer.

Já antes de ser eleita deputada, em 2018, quando ainda era chefe de gabinete de André Silva (deputado único do PAN), deu que falar por alegadas ligações ao grupo IRA, que na altura, estava a ser investigado pela Polícia Juduciária.

Cristina Rodrigues IRA
O vídeo exibido numa reportagem da RTP onde, segundo a estação, aparece Cristina Rodrigues (ao centro).

Em junho de 2020, entrou em rutura com o partido, mas não abdicou do cargo no Parlamento, passando à condição de deputada não-inscrita, defendendo as mesmas causas que abraçou no PAN.

Na altura foi acusada pelo Ministério Público de ter provocado um “apagão informático” nas vésperas de saír do PAN, que resultou na eliminação de mais de 4000 e-mails do partido. Foi acusada de um “crime de dano relativo a programas ou outros dados informático”, em co-autoria com outra ex-funcionária do PAN, e de um “crime de acesso ilegítimo” aos ficheiros informáticos do partido. Acabou por ser absolvida em 2025 por não terem ficarem provados os dois crimes de que Cristina Rodrigues estava acusada pelo Ministério Público.

Manteve-se deputada não-inscrita até ás Legislativas de 2022, quando perdeu o mandato e não se candidatou por nenhum dos partidos concorrentes às eleições, apesar de se manter bastante ativa nas redes sociais onde alcançou um número significativo de seguidores ao defender os direitos humanos, direitos das mulheres, dos animais e das minorias.

No entanto, e de forma supreendente, assumiu nesse ano (2022) o cargo de assessora do grupo parlamentar do Chega, que na altura, elegeu 12 deputados para o Parlamento.

A ligação de Cristina Rodrigues ao partido de extrema direita gerou uma onda choque e repúdio nas redes sociais, principalmente de setores ligados à defesa dos direitos de pessoas LGBTQIA+ e dos direitos dos animais, que se sentiram traídos pela ex-deputada, ao associar-se a um partido que é totalmente hostil a estas causas.

A mudança de orientação política também não agradou a alguns apoiantes do Chega, que olharam com desconfiança para a deputada, principalmente, pela sua forte ligação ao movimento LGBTQIA+.

Em 2025 foi eleita deputada nas listas do Chega pelo círculo eleitoral do Porto, passando a defender temas que sempre contestou de forma firme no Parlamento, como a defesa das touradas, da caça, ou políticas restritivas para imigrantes e pessoas LGBTQIA+.

Atualmente, é também comentadora política no programa televisivo “Linhas Diretas” da SIC Notícias, ao lado de Carlos Guimarães Pinto e Miguel Morgado.